Ishvara Segundo Alice Bailey: o Deus no Coração
Introdução
Nos Yoga Sutras de Patanjali, uma frase curta sustenta todo o caminho do devoto:
“Pela intensa devoção a Ishvara, alcança-se o conhecimento de Ishvara.”
Alice Bailey dedicou a esse nome algumas das páginas mais luminosas de The Light of the Soul, o seu comentário aos sutras, e o tratou em dois movimentos.
No primeiro livro, ela responde quem é Ishvara: a alma livre, o Filho em manifestação, o Mestre de todos os mestres.
No segundo, mostra como se chega a ele, e a resposta é uma prática diária, humilde e precisa.
Os dois movimentos se encontram num mesmo lugar, que Bailey chama de coração.
O Filho em Manifestação
O comentário ao sutra 23 abre com uma definição em duas escalas:
“Ishvara é o filho em manifestação através do sol. Este é o aspecto macrocósmico.
Ishvara é o filho de Deus, o Cristo cósmico, resplandecente no coração de cada um de nós. A palavra ‘coração’ é aqui usada em sua conotação oculta.”
Para situar esse Filho, Bailey oferece uma tabela de correspondências que atravessa o cosmos e o corpo humano. O Espírito, o Pai, corresponde à Mônada, à vontade, ao centro da cabeça e ao Sol espiritual central.
A Alma, o Filho, corresponde ao Ego, ao amor, ao centro do coração e ao Coração do Sol.
O Corpo, o Espírito Santo, corresponde à personalidade, à inteligência ativa, ao centro da garganta e ao Sol físico.
E logo depois ela conclui:
“Ishvara é o segundo aspecto, e portanto o verdadeiro sentido deste sutra é que, por meio da intensa devoção a Ishvara, o Cristo em manifestação, e do amor a ele, esse Cristo ou alma pode ser contatado ou conhecido.”
Bailey pede ao estudante que leia esses sutras em dois níveis.
Eles se referem “ao filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade tal como Ele se manifesta por meio do sistema solar, à alma macrocósmica”.
E têm também um sentido secundário, que se refere “ao divino filho de Deus, o segundo aspecto monádico, tal como Ele se manifesta por meio de um ser humano.
Esta é a alma microcósmica.”
Ela é igualmente cuidadosa com a palavra Cristo.
No mesmo livro, adverte que “uma distinção clara deve ser feita entre o Princípio Crístico”, “um alto aspecto espiritual que cada membro da humanidade deve alcançar”, e o mesmo termo aplicado a um personagem de alta posição que representa esse Princípio, “seja na referência histórica ao Homem de Nazaré ou de outro modo.” Ishvara é o Princípio.
O Deus no Coração
A imagem mais conhecida de Ishvara vem logo em seguida, e Bailey a escreve com a simplicidade de quem descreve um lugar:
“Ishvara é Deus no coração de cada filho de Deus; Ele deve ser encontrado na caverna do coração;
Ele deve ser alcançado por meio do amor puro e do serviço devotado, e quando alcançado Ele será visto sentado sobre o lótus de doze pétalas do coração, segurando em suas mãos a ‘joia no lótus’.
Assim o devoto encontra Ishvara.”
A joia e o lótus têm, nesta biblioteca, artigo próprio.
Aqui interessa o que vem depois do encontro:
“Quando o devoto se torna o raja yogin, então Ishvara lhe revelará o segredo da joia.
Quando o Cristo é conhecido como rei no trono do coração, então Ele revelará o Pai ao Seu devoto.”
E Bailey não deixa a devoção sozinha:
“o devoto tem de trilhar o Caminho do Raja Yoga, e combinar conhecimento intelectual, controle mental e disciplina antes que a revelação possa ser verdadeiramente feita.
O místico deve finalmente tornar-se o ocultista: as qualidades da cabeça e as qualidades do coração devem ser igualmente desenvolvidas, pois ambas são igualmente divinas.”
A Alma Liberta
O sutra 24 dá a Ishvara o seu retrato:
“Este Ishvara é a Alma, intocada pela limitação, livre de karma e de desejo.”
Bailey comenta: “Aqui temos o quadro do homem espiritual como ele é na realidade”, o estado do Mestre, “da alma que entrou na posse de sua herança”.
E desdobra os três traços.
Intocado pela limitação, ele “já não está ‘encurralado, enjaulado e confinado’ pelo quaternário inferior.
Já não está crucificado na cruz da matéria.
As quatro bainhas inferiores, densa, etérica, emocional e mental, já não são sua prisão.
São apenas instrumentos que ele pode usar ou abandonar à vontade.”
Livre de karma, ele “ajustou todo o seu karma, pagou todas as suas dívidas, cancelou todas as suas obrigações”.
A diferença, para Bailey, é de lugar:
“Os homens comuns lidam com efeitos e abrem caminho às cegas através deles.
O Mestre lida com causas”.
Livre de desejo, ele já não é atraído pelas coisas da percepção sensorial em nenhum dos três planos.
A frase que encerra o retrato é das mais belas do livro:
“Ele está no centro e a periferia já não o atrai.”
A Semente de Todo Conhecimento
O sutra 25 chama Ishvara de Gurudeva, o Mestre de todos:
“Em Ishvara, o Gurudeva, a semente de todo conhecimento se expande até o infinito.”
Bailey lembra que essa semente existe também em cada ser humano, e que começa a crescer “assim que a consciência deixa de se identificar com seus veículos ou órgãos.”
Ela pode ser vista, em diferentes estágios, no discípulo, no adepto, no Mestre, no Cristo, no Buda e no Senhor do Mundo.
A expansão segue sempre o mesmo ritmo, que Bailey descreve em sete passos:
o impulso ou determinação de alcançar o novo conhecimento;
a manutenção e o uso da consciência já desenvolvida;
a superação das dificuldades das limitações dos veículos e do karma;
as provas ocultas impostas ao discípulo quando ele mostra capacidade;
o seu triunfo;
o reconhecimento desse triunfo pela Hierarquia planetária;
e “a visão do que está adiante.”
E quem completa cada ciclo assume, nas palavras que Bailey recolhe, a posição de um conhecedor:
“Aquele que ouviu a tradição, experimentou a dissolução do que até então sustentava, viu o que está oculto aos que se apegam à tradição, substituiu-o pelo que foi recém-visto, doou a posse adquirida aos que estendem as mãos vazias, e passou a salões interiores de aprendizado.”
Mestres que São Também Discípulos
No sutra 26, Ishvara é “o mestre dos Senhores primevos”, não limitado pelas condições do tempo.
Bailey traz a ideia para dentro de cada pessoa:
“O único Mestre é encontrado dentro;
é a alma, o governante interior, o pensador em seu próprio plano.”
E tira daí uma consequência que desfaz qualquer hierarquia vaidosa:
“não há nada (falando em termos do reino humano) a ser encontrado exceto Mestres que são também discípulos.
Todos são aprendizes e todos são mestres, diferindo apenas em grau de realização.”
Ela descreve a cadeia inteira em dez elos:
os aspirantes são discípulos de discípulos menores;
os probacionários, de discípulos mais elevados; os discípulos aceitos, de um adepto e de um Mestre; o adepto, de um Mestre; o Mestre, de um Mahatma; os Mahatmas, de iniciados ainda mais altos;
estes, do Cristo ou de quem chefia o departamento de ensino;
este, do Senhor do Mundo;
o Senhor do Mundo, de um dos três espíritos planetários;
e estes, do Logos solar.
“Ficará evidente, portanto, ao estudante cuidadoso”, conclui ela, “quão interdependentes são todos e como a realização de um afetará profundamente o corpo inteiro.”
Muitos Nomes para o Mesmo Filho
Para que o estudante reconheça Ishvara sob outras linguagens, Bailey reúne os seus sinônimos numa lista de duas colunas, cada nome acompanhado de uma qualidade.
Na coluna do macrocosmo estão, entre outros,
“O Filho de Deus: o revelador do Pai”,
“O Cristo cósmico: Deus em encarnação”,
“Vishnu: a segunda pessoa da Trimurti hindu”,
“A alma de todas as coisas: átomos e almas são termos sinônimos”,
“Eu sou Aquilo: consciência de grupo”,
“O Gurudeva: o Mestre de todos” e
“A luz do mundo: brilhando na escuridão”.
Na coluna do microcosmo, os mesmos traços reaparecem em escala humana:
“O Cristo: Cristo em vós, a esperança da glória”,
“O Eu superior: o Senhor dos corpos”,
“O Mestre: o eu no trono”,
“O radiante Augoeidas: a luz interior”.
E o sutra 27 dá a Ishvara a sua voz:
“A Palavra de Ishvara é AUM (ou OM). Este é o Pranava.”
O Ritmo de Cada Um
Antes de chegar a Ishvara, os sutras 21 e 22 tratam da vontade de quem busca, e Bailey os comenta com uma atenção quase terna às diferenças entre as pessoas.
“Aqueles que empregam a vontade igualmente diferem, pois seu uso pode ser intenso, moderado ou suave.”
Os intensos alcançam resultados muito rápidos, mas com riscos:
“o risco de um desenvolvimento desigual, de uma negação do lado do coração da natureza”.
Os moderados “procedem com firmeza e moderação e são chamados de ‘adeptos discriminadores'”, e Bailey é clara a respeito deles:
“O seu método é recomendado aos homens neste ciclo particular.”
Os suaves seguem “firme e invariavelmente adiante, chegando finalmente à sua meta.
Distinguem-se por intensa tenacidade.
Seu progresso é lento.
São as ‘tartarugas’ do Caminho, assim como o primeiro grupo são as ‘lebres’.”
Os livros antigos, conta ela, os representam por três símbolos, o bode, o peixe e o caranguejo, ligados a Capricórnio, Peixes e Câncer.
A maioria passa depois por Libra, onde aprende a “manter um passo uniforme”, e muitos entram em Aquário, carregando “sobre a cabeça a taça de água viva”, que não pode ser derramada, mas que também não pode esperar, porque a água existe para matar a sede das massas:
“devem apressar o seu progresso, pois a necessidade é grande.
Assim ‘os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros’ e a lebre e a tartaruga se encontram na meta.”
A Devoção como Método
O segundo livro do comentário começa onde o primeiro termina, com a pergunta de quem acabou de ver a meta:
“o que devo fazer? Por onde começar?”
O sutra II.1 responde: “A yoga da ação, que conduz à união com a alma, é aspiração ardente, leitura espiritual e devoção a Ishvara.”
Cada uma das três tem o seu corpo.
A devoção a Ishvara, diz Bailey, “se relaciona ao corpo astral ou emocional, o coração inteiro derramado em amor a Deus: Deus em seu próprio coração, Deus no coração de seu irmão, e Deus visto em toda forma.”
Ela é “a sublimação da bhakti yoga”, e o seu alcance é largo:
“‘Devoção a Ishvara’ é um termo amplo e geral que abrange a relação do eu pessoal com o eu superior, o Ishvara ou princípio crístico no coração.
Abrange também a relação do Ishvara individual com o Ishvara universal ou cósmico”.
O resultado dessa relação é a consciência de grupo.
Bailey enumera o que a devoção envolve.
A primeira coisa é “a capacidade de descentralizar-se, de mudar a atitude de egocentrismo e egoísmo para uma de saída em direção ao ser amado.”
A segunda é a obediência, e aqui ela faz uma escolha de tradução que diz muito sobre o seu ensinamento.
O texto original pede “completa obediência ao Mestre”;
Bailey preferiu traduzir por Ishvara, “o único Deus no coração do homem, o divino Jiva ou ‘ponto de vida divina’ no centro do ser do homem.
Este é o mesmo em todos os homens, seja selvagem ou adepto;
a diferença está apenas no grau de manifestação e de controle.”
E acrescenta uma advertência que vale para qualquer caminho espiritual:
“A completa obediência a qualquer guru ou mahatma, no sentido de completa subjugação da vontade, nunca é ensinada na verdadeira ciência do yoga.
A subjugação do homem inferior à vontade do Deus interior é ensinada”.
Desse sutra nascem três perguntas que Bailey entrega ao aspirante para a vida prática:
“1. Para que objetivo tendem todos os anseios e aspirações da minha alma, para Deus ou para as coisas materiais?
2. Estou colocando toda a minha natureza inferior sob o controle de Ishvara ou do verdadeiro homem espiritual?
3. Vejo Deus por trás de toda forma e circunstância nos meus contatos diários?”
A Quinta Regra
No sutra II.32, a devoção a Ishvara aparece como a última das cinco regras de conduta interior, ao lado da purificação interna e externa, do contentamento, da aspiração ardente e da leitura espiritual.
Bailey lembra que essas regras vêm antes de qualquer técnica:
as práticas de yoga que tanto atraem o estudante ocidental “não são permitidas pelo verdadeiro guru ou instrutor até que yama ou niyama tenham sido estabelecidos como fatores de controle na vida diária do discípulo.”
Ela resume as cinco regras como cinco atitudes.
A purificação diz respeito à relação do homem com a sua natureza inferior;
o contentamento, ao seu karma ou destino; a aspiração ardente, à sua alma;
a leitura espiritual, ao ambiente e aos contatos do plano físico; e a devoção a Ishvara, à “Existência una, Deus”.
E descreve o que essa devoção produz ao longo do tempo:
ela constitui “a atitude do eu inferior tríplice a serviço do ego, o governante interior, o Deus ou Cristo interno.
Isto será tríplice em sua manifestação, levando esse eu pessoal inferior a uma vida de obediência ao Mestre dentro do coração;
levando finalmente o aspirante ao grupo de algum adepto ou instrutor espiritual, e conduzindo-o também ao serviço devotado a Ishvara ou ao Eu divino tal como encontrado nos corações de todos os homens e por trás de todas as formas de manifestação divina.”
O Caminho até o Samadhi
O sutra II.45 fecha o círculo aberto no primeiro livro:
“Por meio da devoção a Ishvara a meta da meditação (ou samadhi) é alcançada.”
Bailey define essa meta como a capacidade de contatar o eu divino interior e, por meio desse contato, “chegar a uma realização da unidade desse eu com todos os eus e com o Eu-Todo, e isso não apenas teoricamente, mas como um fato da natureza.”
E diz o que sustenta o aspirante até lá:
“Só a devoção a Ishvara, ou o verdadeiro amor a Deus, com suas qualidades acompanhantes de serviço, amor ao homem e paciente perseverança no bem-fazer, carregará um homem por esse árduo caminho de disciplina, purificação e trabalho duro.”
A mesma devoção atravessa a história da humanidade.
O discípulo lemuriano aprendeu a controlar o corpo físico “e a dedicá-lo ao serviço de Ishvara por meio da hatha yoga”;
o atlante, a controlar o corpo emocional e a dedicá-lo a Ishvara por meio da bhakti yoga;
e o discípulo de hoje “tem de aprender a controlar o corpo mental e dedicá-lo ao serviço de Ishvara por meio do Raja Yoga, com aspiração ao conhecimento daquele que habita dentro, a alma.”
Por isso Bailey diz que o discípulo deste tempo deve praticar “Raja Yoga mais bhakti yoga”, e o define numa expressão que resume tudo o que ela ensina sobre Ishvara:
“ele deve ser um devoto mental.”
Conclusão
Ishvara, em Alice Bailey, é ao mesmo tempo o Filho que se manifesta através do sol e a alma liberta sentada no lótus do coração de cada pessoa.
É o Gurudeva diante do qual todos os mestres continuam discípulos, e o ponto de vida divina que é o mesmo no selvagem e no adepto.
O caminho até ele começa pela devoção, que Bailey nunca separa da mente nem da disciplina, e que nunca confunde com submissão a outra pessoa:
o devoto obedece ao Deus que encontra dentro e reconhece no coração de seu irmão.
Uma passagem de A Treatise on Cosmic Fire descreve o ponto de chegada desse reconhecimento em escala cósmica, quando “Anu, o infinitesimal, for visto contendo Ishvara em Sua potência”.
No ser humano, ele começa com uma das perguntas que Bailey deixou para a vida diária:
“Vejo Deus por trás de toda forma e circunstância nos meus contatos diários?”
Fontes Diretas
The Light of the Soul, “Book I, The Problem of Union, Part 1” (a distinção entre o Princípio Crístico e o personagem que o representa) e “Part 2” (sutras 19 a 27: os três graus da vontade e seus símbolos, Ishvara como filho em manifestação através do sol, a tabela de correspondências entre aspecto, qualidade, centro e macrocosmo, o Deus no coração e a joia no lótus, o místico que se torna ocultista, a alma intocada pela limitação, livre de karma e de desejo, a semente de todo conhecimento e os sete passos de sua expansão, o conhecedor, o mestre dos Senhores primevos, a cadeia de discípulos do aspirante ao Logos solar, os sinônimos do macrocosmo e do microcosmo, a Palavra AUM); “Book II, The Steps to Union, Part 1” (sutra II.1: aspiração ardente, leitura espiritual e devoção a Ishvara, a devoção como sublimação da bhakti yoga, a descentralização, a escolha da tradução e a advertência sobre a obediência a gurus, as três perguntas), “Part 3” (sutra II.32: a devoção a Ishvara como quinta regra e sua manifestação tríplice, as regras antes das práticas) e “Part 4” (as cinco regras como atitudes, sutra II.45: a devoção a Ishvara e a meta da meditação, os discípulos lemuriano, atlante e atual, o devoto mental); A Treatise on Cosmic Fire, “2. The Fire Devas, the Greater Builders, Part 3” (Anu contendo Ishvara em Sua potência).


