A Lei de Correspondência Segundo Alice Bailey
Introdução
A maior parte das leis que Alice Bailey descreve governa algum processo: a matéria, a alma, a morte, o renascimento.
A Lei de Correspondência é diferente.
Ela governa o modo de conhecer.
Nos Postulados Introdutórios de A Treatise on Cosmic Fire, Bailey a define assim:
“Esta Lei de Correspondências ou de Analogia é a lei interpretativa do sistema, e explica Deus ao homem.”
Em Initiation, Human and Solar, ela vai além:
o único caminho para encontrar a chave do mistério dos raios, dos sistemas e das hierarquias “está no estudo da lei de correspondências ou analogia.
É o único fio pelo qual podemos encontrar o caminho através do labirinto, e o único raio de luz que brilha através da escuridão da ignorância que nos cerca”.
Blavatsky já o tinha dito, acrescenta Bailey, “mas até agora muito pouco foi feito pelos estudantes para se valerem dessa chave”.
Este texto apresenta a lei, os exemplos em que Bailey a aplica, os limites que ela mesma lhe impõe e duas leis vizinhas, a da Repetição e a da Resposta Tríplice.
O mapa completo de todas as leis está em “As Leis Segundo Alice Bailey: a Arquitetura da Lei”.
O Que a Lei Afirma
A forma mais antiga da lei é a fórmula hermética que Bailey cita em A Treatise on White Magic e em Esoteric Healing:
“Assim como em cima, assim embaixo.” O investigador moderno, escreve ela, “admitirá a Lei de Analogia como a base das suas premissas”.
E dá o fundamento:
“Por meio da Lei de Analogia, ou das correspondências, os processos cósmicos e a natureza dos princípios cósmicos são indicados nas funções, na estrutura e nas características de um ser humano.
São indicados, mas não explicados nem elaborados.
Servem simplesmente como sinais de orientação, dirigindo o homem pelo caminho onde novos sinais poderão ser encontrados.”
A lei parte de um fato: o Logos do sistema solar é o Macrocosmo e o homem, o Microcosmo.
Nos mesmos Postulados, Bailey liga isso à fraternidade:
a relação entre todas as almas e a Superalma “constitui a base para a crença científica na Fraternidade.
A Fraternidade é um fato na natureza, não um ideal.
A Lei de Correspondências explicará os detalhes desta relação.”
Daí a consequência que Bailey extrai em The Light of the Soul:
“É um truísmo oculto que, à medida que um homem chega a um conhecimento de si mesmo, sob a grande lei de analogia ele chega ao conhecimento de Deus.” Ela cita uma escritura oculta:
“Dentro do grão, Deus pode ser visto.
Dentro do homem, Deus pode reinar.
Dentro de Brahma ambos se encontram; e, no entanto, tudo é um.
O átomo é como Deus, Deus como o átomo.”
No mesmo livro, comentando os três meios de conhecimento correto de Patanjali, Bailey situa a lei com precisão.
O segundo meio é “a dedução ou inferência”, o uso do raciocínio sobre aquilo que não se percebe diretamente.
“Isto é, para o estudante de ocultismo, o uso da Lei de Correspondências ou de Analogia.”
A lei, portanto, pertence à mente.
Ela fica entre a percepção dos sentidos e a cognição direta do vidente.
Como Bailey a Aplica
Os livros de Bailey estão cheios de aplicações da lei. Algumas mostram bem o seu modo de funcionar.
Os Números e os Planos que se Espelham
Os números se repetem em todas as escalas. Em Cosmic Fire, ao tratar das sete leis do sistema solar, Bailey dá o exemplo da quarta: a Lei de Controle Magnético rege o quarto plano, o búdico, o quarto subplano de cada plano, a quarta ronda e a quarta raça-raiz, e corresponde ao quarto raio.
Em Discipleship in the New Age, Vol. I: “Sob a Lei de Correspondência, há sempre uma relação numérica com entidades numéricas estabelecidas.”
Os seis estágios do discipulado, por exemplo, se relacionam com as seis escolas da filosofia indiana.
Os planos se espelham uns nos outros.
Em A Treatise on White Magic: “Sob a Lei de Correspondências, o plano mental tem uma analogia no terceiro subplano do plano físico, o plano em que a ciência está agora entrando.”
Em Esoteric Psychology, Vol. I, o reino mineral é o reino fundamental dos três mundos, “precipitado de substância etérica”. Em Cosmic Fire, o planeta Netuno tem “uma estreita ligação, sob a Lei de Correspondências”, com o sexto plano, o astral, com a parte líquida do corpo físico e com o sexto raio.
As Relações Cósmicas e as Escolhas Espirituais
As relações também se espelham. Em Cosmic Fire, Bailey usa a lei para falar de Sírius:
a Lei do Karma controla o nosso Logos “da mesma maneira que o ego, no devido curso da evolução, controla a personalidade humana”, e “sob a Lei de Correspondências teremos uma relação no Cosmos semelhante à que existe no microcosmo entre o ego e a personalidade”.
Em Initiation, Human and Solar, o sexto dos Caminhos superiores, o que o próprio Logos trilha, é compreendido do mesmo modo:
o Logos desenvolve uma visão cósmica interior, “assim como o homem, no seu grau menor, visa à mesma visão no sistema”, o que se poderia chamar de “desenvolvimento do terceiro olho cósmico”.
A lei explica até escolhas da história espiritual.
Em The Rays and the Initiations, Bailey conta que o primeiro ser humano do quarto reino a tomar a terceira iniciação o fez num Ashram do quarto raio, “o Raio da Harmonia por meio do Conflito”, e acrescenta:
“Vocês podem ver, sob a Lei de Correspondências, por que foi assim.”
Em Education in the New Age: “O quinto reino da natureza, o espiritual, emergirá da quinta raça-raiz.
Tal é o controle esotérico da Lei de Correspondência.”
Em Esoteric Healing, ao comentar a décima lei da cura, ela observa que a morte de todos os homens, do mais primitivo ao aspirante, segue “sob a mesma Lei de Correspondências” o mesmo processo: “a diferença está no grau de consciência demonstrado”.
E em Telepathy and the Etheric Vehicle, ao terminar uma exposição sobre os centros, Bailey indica a amplitude da lei:
“Sob a grande Lei de Correspondências, tudo o que aqui dei ou indiquei pode ser aplicado pelo estudante a todas as formas de vida: a um universo, a um sistema solar, a um planeta, a um ser humano, a qualquer forma sub-humana e ao menor átomo de substância.”
Os Limites da Analogia
Bailey usa a lei constantemente, mas cerca o seu uso de advertências.
Contra o Excesso, a Tabela e a Leitura Literal
A primeira é contra o excesso. Em Cosmic Fire, logo depois de comparar o Logos de Sírius ao ego humano:
“Não devemos, porém, levar a analogia longe demais; como ainda não evoluímos até ter consciência planetária, menos ainda sistêmica, como podemos realmente esperar sequer conceber o ABC da verdade cósmica?”
A segunda é contra a tabela. Em Initiation, Human and Solar:
“Amplas generalidades e o reconhecimento de pontos fundamentais de analogia são possíveis ao estudante comum.
No momento em que ele tenta reduzir a quadros e tabular em detalhe, entra em regiões onde está fadado a errar, e cambaleia através de uma névoa que acabará por dominá-lo.”
O estudo científico da lei, porém, traz conhecimento aos poucos, e o estudante acabará por ter “pelo menos uma ampla concepção geral da forma-pensamento logóica”.
A terceira é contra a leitura literal. Em Cosmic Fire, Bailey dá à lei um nome próprio, a Lei de Semelhança:
“assim podem ser trabalhadas as analogias, pois sempre esta Lei de Semelhança vale;
mas sempre se deve lembrar que a analogia é de natureza psíquica, e se demonstra no trabalho, na atividade e na qualidade, e não na identidade literal da forma”.
A Mutação e o Limite Cósmico da Analogia
A quarta é contra a fixidez. Em Cosmic Fire, ela fala de um princípio de mutação que governa “todo departamento na Lei de Correspondências”:
o que se diz dos raios e dos planos é verdade “para o presente”, e os raios que hoje são maiores poderão deixar de sê-lo.
Em Esoteric Astrology, diante de aparentes contradições no ensino, ela recomenda “estudar e relacionar, refletir e aplicar a Lei de Analogia”, sabendo que, quando a consciência mais ampla do iniciado substituir a atual, as contradições desaparecerão.
A última é a mais radical. Em The Rays and the Initiations, falando das iniciações do próprio Logos planetário, Bailey escreve:
“A Lei de Analogia e de Correspondências deixa de valer num certo ponto do caminho da compreensão, e algo novo e totalmente diferente entra.
A Lei de Analogia vale quando se considera o microcosmo dentro da vida do Macrocosmo, mas, se vocês se aventurassem fora daquela Vida limitada e manifestada (se isso fosse possível, o que não é), encontrariam outras Leis e outras abordagens da verdade, existentes nos níveis cósmicos.”
Uma Pedra de Toque
Dentro desses limites, a lei serve como critério de verdade.
Em The Rays and the Initiations, Bailey a chama de infalível: “A Lei de Correspondências é infalível, se corretamente abordada e aplicada.”
Em Telepathy and the Etheric Vehicle: “Nunca o padrão geométrico, a progressão numérica ou a Lei de Correspondências falham na compreensão do propósito e dos planos do Logos planetário.”
Por isso ela a propõe como teste do seu próprio ensinamento.
Na declaração do Tibetano reproduzida em The Destiny of the Nations, a orientação é clara:
se o ensinamento evocar resposta da mente iluminada e despertar a intuição, que seja aceito.
“Se as afirmações encontrarem corroboração final, ou forem consideradas verdadeiras sob o teste da Lei de Correspondências, então está bem.
Mas, se não for assim, que o estudante não aceite o que é dito.” Em Cosmic Fire, ao apresentar as tabelas sobre os devas, Bailey indica três modos de verificar o que transmite:
a meditação sobre a Lei de Correspondências, as probabilidades realizáveis e as indicações confirmadoras da literatura oculta.
O mesmo critério vale para outros escritos.
Em From Intellect to Intuition, entre os sinais da verdadeira escrita inspirada, Bailey inclui este:
ela “responderá à lei de correspondências e se encaixará no quadro do mundo”.
Em A Treatise on White Magic, ela diz que os discípulos que recebem ensino dos Mestres podem, quando trabalham conscientemente, verificar a sua exatidão “sob a Lei de Correspondências e por meio do uso de símbolos”.
E em The Reappearance of the Christ, ao relatar três acontecimentos interiores na vida do Cristo, admite que não pode prová-los:
“só a possibilidade, a probabilidade e a Lei de Correspondências podem indicar a exatidão destes acontecimentos”.
O Iniciado e a Analogia
A lei acompanha o discípulo até as iniciações.
Em Initiation, Human and Solar, Bailey descreve o segredo revelado ao iniciado sobre “a coerência do átomo”, depois do qual “ele está em condições de estudar o microcosmo sob a lei de correspondências de modo novo e esclarecedor”.
Mais adiante, ela diz que o conhecimento transmitido na iniciação, somado ao progresso do iniciado “no estudo da lei de analogia”, lhe permite compreender a manipulação das mesmas forças em escala muito maior, no esquema planetário e no sistema solar.
Em The Rays and the Initiations, a lei aparece como a chave de uma ciência futura:
“Vocês podem ver, portanto, quão significativa é a vindoura Ciência da Comparação. […] A Lei de Analogia é a chave que destranca a compreensão.”
E Bailey mesma recorre a ela quando o tema ultrapassa o que pode explicar.
Diante da Regra XIII, sobre os três Budas de Atividade, escreve:
“Tudo o que posso fazer é recorrer à Lei de Analogia, por meio da qual o microcosmo pode chegar a um vislumbre de compreensão dos aspectos mais óbvios do Macrocosmo.”
Em Discipleship in the New Age, Vol. II, ela fala dos pontos de revelação que o iniciado recebe e acrescenta que, “sob a Lei de Correspondência ou Analogia, o iniciado pode chegar gradualmente a uma percepção verdadeira dos significados envolvidos”.
A Lei da Repetição
Uma das aplicações mais claras da analogia tem nome próprio.
Em Cosmic Fire, ao tratar dos métodos de individualização, Bailey observa que o método do sistema anterior reapareceu na cadeia lunar, “apenas evidência da firmeza da Lei da Repetição, pela qual todo ciclo maior inclui, nas suas etapas iniciais, todos os menores, e repete o procedimento anterior”.
E dá exemplos conhecidos:
“isto é um fato reconhecido, por exemplo, na construção do corpo físico do homem, pois o feto reproduz todas as etapas e formas anteriores até que o humano seja alcançado;
e também, como sabemos, a quarta ronda reproduz brevemente as três anteriores, mas tem a sua própria qualidade distintiva”.
Os ciclos têm artigo próprio nesta série.
A Lei da Resposta Tríplice
Em Telepathy and the Etheric Vehicle, Bailey anuncia uma mudança no modo de a humanidade responder.
Submetida a um processo constante de expansão desde que o reino humano surgiu, a humanidade “chegou agora ao estágio em que pode começar a sair do controle do que tem sido chamado de Lei da Resposta Tríplice, para uma nova fase de desdobramento, em que domina um dualismo reconhecido”.
Ela explica o que muda.
O homem avançado é consciente de duas triplicidades: a do homem inferior (corpo físico, natureza astral, mente) e a dos três veículos periódicos (Mônada, alma, personalidade).
Quando a alma e a personalidade fazem contato, “dois veículos periódicos foram unidos”, e o corpo etérico passa a poder ser usado conscientemente como transmissor de energias e de impressões da Tríade Espiritual.
É a esse estado que Bailey chama de dualismo reconhecido.
Conclusão
A Lei de Correspondência é a ferramenta com que Bailey ensina, e ela a oferece ao estudante com a mesma liberdade e as mesmas cautelas com que a usa.
Ela permite ler o cosmo a partir do homem e o homem a partir do cosmo, desde que não se force a tabela, não se tome a analogia ao pé da letra e se admita que, num certo ponto, ela deixa de valer.
Em The Light of the Soul, Bailey resume o que está em jogo:
o conhecimento de si conduz ao conhecimento de Deus, e esse conhecimento, segundo ela, abrange “as formas, os constituintes da forma, as forças, os grupos, a energia”.
Fontes Diretas
- A Treatise on Cosmic Fire, “Introductory Postulates” (a lei interpretativa do sistema, a Fraternidade como fato na natureza), “Foreword” (raciocinar do microcosmo para o Todo), “I. Thought Forms, Part 1” (Sírius e o ego, não levar a analogia longe demais), “I. Thought Forms, Part 2” (a quarta lei, raio, plano, ronda e raça), “I. Thought Forms, Part 3” (o princípio de mutação), “Division A, Manas or Mind and its Nature, Part 1” (a Lei de Semelhança), “I. The Origin of Manas or Mind, Part 1” (a Lei da Repetição), “4. The Fire Elementals, the Lesser Builders, Part 1” (Netuno e o sexto plano, os três modos de verificação);
- Initiation, Human and Solar, “Chapter I, Introductory Remarks” (o único fio no labirinto, o risco das tabelas), “Chapter XVI, The Imparting of the Secrets” (a coerência do átomo, o estudo da lei de analogia) e “Chapter XVIII, The Seven Paths” (o Caminho do próprio Logos e o terceiro olho cósmico);
- A Treatise on White Magic, “Man’s Three Aspects, Part 1” (“assim como em cima, assim embaixo”, os sinais de orientação), “The Founding of the Hierarchy” (o plano mental e o terceiro subplano físico) e “The Soul and its Thought-Forms, Part 1” (a verificação do ensino);
- Esoteric Healing, “Chapter I, The Psychological Causes of Disease, Part 7” (a Lei de Analogia como base das premissas) e “Chapter VIII, The Laws and Rules Enumerated and Applied, Part 6” (a morte de todos os homens sob a mesma lei);
- The Light of the Soul, “Book I, Part 1” (a dedução ou inferência) e “Book I, Part 4” (o conhecimento de si e de Deus, “o átomo é como Deus”);
- Esoteric Psychology, Vol. I, “1. The Mineral Kingdom” (o reino mineral e o etérico);
- Discipleship in the New Age, Vol. I, “Section Three, The Six Stages of Discipleship, Part 4” (a relação numérica, as seis escolas);
- Discipleship in the New Age, Vol. II, “Section Three, Teachings on Initiation, Part 7” (os pontos de revelação);
- The Rays and the Initiations, “Rule Six” (a Ciência da Comparação), “Rule Ten, Part 1” (a lei é infalível), “Rule Thirteen, Part 1” (os três Budas de Atividade), “Section One, The Aspirant and the Mysteries of Initiation, Part 2” (o Ashram do quarto raio) e “Section Two, The Aspirant and the Major Initiations, Part 5” (a lei deixa de valer num certo ponto);
- Telepathy and the Etheric Vehicle, “Section One, Teaching on Telepathy, Part 3” (a Lei da Resposta Tríplice), “Part 4” (nunca falham na compreensão do propósito) e “Section Two, Teaching on the Etheric Vehicle, Part 2” (do universo ao átomo);
- Education in the New Age, “Chapter IV, The Culture of the Individual, Part 1” (o quinto reino e a quinta raça);
- Esoteric Astrology, “3. The Triangles and the Centres, Part 1” (as contradições que desaparecerão);
- The Destiny of the Nations, “Extract from a Statement by the Tibetan” (o teste da Lei de Correspondências);
- From Intellect to Intuition, “Chapter Ten, The Need for Care in Meditation” (a escrita inspirada);
- The Reappearance of the Christ, “Chapter Four, The Work of the Christ Today and in the Future, Part 1” (possibilidade, probabilidade e a Lei de Correspondências).


