Concentração, Meditação e Contemplação Segundo Alice Bailey: a Escada da Mente
Introdução
Este é o segundo texto de uma trilogia.
O primeiro, “O Vidente e o Visto Segundo Alice Bailey”, mostra que há em nós alguém que observa e algo que é observado, e que a dor nasce da confusão entre os dois.
Este texto descreve o caminho pelo qual a mente aprende a servir ao Observador em vez de escondê-lo.
O terceiro, “Stillness e Awareness Segundo Alice Bailey”, trata do estado que esse caminho torna possível.
Em From Intellect to Intuition, Alice Bailey define a meditação como “um processo ordenado pelo qual o homem encontra Deus” e insiste no sentido das palavras:
“As palavras importantes aqui são ‘processo ordenado’.
Há certas regras a seguir, certos passos definidos a dar e certos estágios de desenvolvimento.”
Cinco Degraus
No mesmo livro, Bailey apresenta a escada inteira em cinco estágios:
| Estágio | Definição de Bailey |
|---|---|
| Concentração | O ato de concentrar a mente, aprendendo a focalizá-la e assim usá-la |
| Meditação | A focalização prolongada da atenção em qualquer direção e a sustentação firme da mente em qualquer ideia desejada |
| Contemplação | Uma atividade da alma, desapegada da mente, que é mantida em estado de quiescência |
| Iluminação | O resultado dos três processos anteriores, que envolve trazer para a consciência do cérebro o conhecimento alcançado |
| Inspiração | O resultado da iluminação, tal como se demonstra na vida de serviço |
“Estes cinco estágios, quando seguidos, conduzem à união com a alma e ao conhecimento direto da divindade.”
Logo em seguida, Bailey põe os pés de quem começa no chão:
“Para a maioria daqueles que empreendem o estudo da meditação, o estágio que deve absorver a sua atenção por longo tempo, praticamente com exclusão dos outros, é o da concentração, o ganho de controle dos processos mentais.”
Concentração: a Mente Fixada
O primeiro sutra do terceiro livro de Patanjali, na versão de Bailey em The Light of the Soul, diz:
“Concentração é a fixação do chitta (substância mental) sobre um objeto particular.
Isto é dharana.”
Em From Intellect to Intuition, ela amplia a definição: concentração “é o poder de focalizar a consciência num dado assunto e mantê-la ali pelo tempo que se desejar”.
E acrescenta:
“Outra palavra para concentração é atenção, isto é, atenção unidirecionada.”
Bailey cita Vivekananda, que traduz dharana como “manter a mente num só pensamento durante doze segundos”, e explica por que o número impressiona:
“Esta percepção clara, unidirecionada e quieta de um objeto, sem que nenhum outro objeto ou pensamento entre na consciência, é das mais difíceis de alcançar, e quando pode ser feita durante o espaço de doze segundos, a verdadeira concentração está sendo alcançada.”
O treino começa longe da almofada de meditação:
“Seja concentrado em tudo o que você faz, o dia todo, todos os dias.
A concentração será rapidamente desenvolvida se cultivarmos o hábito da exatidão em todos os assuntos da vida.”
Falar com exatidão exige ouvir com exatidão, e isso já é concentração.
Meditação: a Mesma Fixação, Sustentada
O segundo sutra é curto:
“A concentração sustentada (dharana) é meditação (dhyana).”
Bailey comenta que a meditação “é apenas a extensão da concentração” e que “a única distinção entre as duas está no elemento tempo”.
Primeiro a mente aprende a fixar-se. Depois aprende a permanecer.
Ela desfaz duas ideias comuns.
A primeira é a de que meditar exige abandonar o pensamento:
“A meditação é atividade de natureza muito intensa.”
A segunda é a de que a meditação depende de esforço a cada vez:
“A meditação é o resultado da experiência.
É a obtenção instantânea de uma atitude da mente como consequência de longa prática.”
Daí a advertência mais firme do livro:
“Quando a mente é atordoada até a inação pela inibição ou por repetições persistentes, ela não pode ser transcendida na contemplação nem usada na meditação.
Praticar tornar a mente vazia não é apenas tolo, mas efetivamente perigoso.”
A mente que Bailey quer é desperta e focalizada.
Por isso mesmo quem já chegou à contemplação volta, de tempos em tempos, a usar uma forma na meditação, “a fim de ter certeza de que não está recaindo num estado emocional negativo e quiescente”.
Em Letters on Occult Meditation, Bailey distingue as duas direções que essa mente focalizada pode tomar.
Na meditação com semente, o homem visa “a formação de pensamentos, a trazer para os níveis concretos do plano mental as ideias abstratas e as intuições”.
Na meditação sem semente, visa “o alinhamento do ego e a criação daquele vácuo entre o cérebro físico e o Ego, que resulta no derramamento divino”.
E acrescenta:
“Num certo período da evolução as duas se fundem.”
Contemplação: Quando a Alma Assume
O terceiro sutra marca uma mudança de natureza:
“Quando o chitta se torna absorvido naquilo que é a realidade (ou a ideia corporificada na forma), e não tem consciência da separação nem do eu pessoal, isto é contemplação ou samadhi.”
Bailey explica o que acontece antes dessa absorção.
Na meditação, o estudante percebe primeiro a forma do objeto e, depois, a vida que se expressa através dela, “mas ainda persiste o sentido de separação ou de dualidade.
Ele ainda tem consciência de si mesmo e daquilo que é o não-eu”.
Na contemplação, essa separação cai.
E ela cita um mestre hindu, Kecidhvaja, para mostrar o papel da mente:
“A alma tem os meios.
O pensar é o meio.
Ele é inanimado.
Quando o pensar completou a sua tarefa de libertação, fez o que tinha de fazer e cessa.”
Em The Soul and Its Mechanism, a definição é direta:
“Contemplação é o ato da alma no seu próprio reino, ao olhar sobre as formas e contatar as energias encontradas no quinto reino da natureza, o reino espiritual.”
From Intellect to Intuition descreve o momento por dentro.
Bailey recolhe de Evelyn Underhill a definição de contemplação como “a pausa entre duas atividades” e explica o que a prepara:
“O cérebro físico foi aquietado e mantido firme; o aparelho sensorial também foi silenciado e não tem mais permissão para registrar informações do seu campo habitual de percepção; a mente foi focalizada e mantida ativamente passiva na luz que flui do reino da alma.”
A expressão “ativamente passiva” é a chave do degrau.
A mente, “positiva, alerta e bem controlada, é levada adiante nas asas do pensamento e então mantida firme no ponto mais alto atingível”.
Ali ela espera, “enquanto a consciência do pensador se desloca para um novo estado de percepção e ele se identifica com o verdadeiro homem interior e espiritual”.
E Bailey conclui:
“O que é tecnicamente chamado de ‘consciência perceptora’ espera.”
É nesse ponto que a escada encontra o Observador do primeiro texto desta trilogia.
Quem contempla é a alma.
A mente, quieta e desperta, apenas segura a luz.
Sanyama: os Três Num Só Ato
O quarto sutra une os três degraus:
“Quando concentração, meditação e contemplação formam um só ato sequencial, então se alcança o sanyama.”
Bailey admite a dificuldade:
“Esta é uma ideia muito difícil de expressar, pois não temos na língua inglesa o equivalente do termo sânscrito ‘sanyama’.
É a síntese dos três estágios do processo de meditação.”
E lista seis resultados de quem a alcança:
| # | Resultado do sanyama |
|---|---|
| 1 | Libertou-se dos três mundos da mente, da emoção e da existência física; eles não atraem mais a sua atenção |
| 2 | Pode focalizar a atenção à vontade e manter a mente firme indefinidamente |
| 3 | Pode centrar-se na consciência da alma e conhece-se como separado da mente, das emoções, dos desejos e da forma |
| 4 | Reconhece o homem inferior como simplesmente o seu instrumento de comunicação com os três planos inferiores |
| 5 | Adquiriu a faculdade da contemplação e pode olhar para o reino da alma como um homem usa os olhos no plano físico |
| 6 | Pode transmitir ao cérebro, por meio da mente controlada, aquilo que vê |
O último item é o que separa a escada de Bailey de uma busca de êxtase pessoal.
A contemplação só se completa quando o que foi visto desce ao cérebro e chega à vida.
A Luz Que se Acende aos Poucos
Os sutras seguintes descrevem o fruto:
“Como resultado do sanyama, vem o brilhar da luz.”
E logo:
“Esta iluminação é gradual; ela se desenvolve estágio por estágio.”
O sutra 9 descreve, em câmera lenta, o que se passa na mente durante esse processo:
“A sequência dos estados mentais é a seguinte:
a mente reage àquilo que é visto;
segue-se o momento do controle mental.
Então sobrevém um momento em que o chitta (substância mental) responde a ambos esses fatores.
Finalmente estes passam, e a consciência perceptora tem pleno domínio.”
Os sutras 10 e 11 dizem o que nasce da repetição desse movimento:
“uma firmeza da percepção espiritual” e, por fim, “o poder constante de contemplar”.
Iluminação e Inspiração
Os dois últimos degraus da escada de From Intellect to Intuition devolvem a contemplação ao mundo.
Depois de mantida firme na luz, a mente realiza um trabalho próprio:
“Tendo sido mantida firme na luz, ela agora registra e anota as ideias, impressões e conceitos que lhe são transmitidos pela alma que contempla, formulando-os em frases e sentenças, construindo-os em formas-pensamento e criando imagens mentais claras.”
Por isso Bailey valoriza uma mente bem formada:
“Uma mente treinada, uma memória bem provida e uma mentalidade cuidadosamente cultivada facilitarão grandemente o trabalho da alma.”
A iluminação é esse registro.
A inspiração é o seu fruto na vida de serviço.
Além da Semente
Ainda assim, Bailey reconhece um nível que ultrapassa a escada inteira.
O sutra 8 diz:
“Mesmo estes três, porém, são externos à verdadeira meditação sem semente (ou samadhi), que não se baseia num objeto.
Ela é livre dos efeitos da natureza discriminativa do chitta (ou substância mental).”
Em Discipleship in the New Age, Vol. II, ela mostra o que acontece com a concentração no limiar de uma iniciação:
o iniciado “alcançou uma atitude mental da mais extrema concentração”.
E acrescenta, com uma ponta de ironia dirigida aos discípulos:
“este ponto de tensão é algo de que vocês ainda sabem pouco, e contudo usam com desenvoltura as palavras Meditação e Concentração.
Temporariamente, e a fim de avançar e ao mesmo tempo deixar para trás, o iniciado torna-se um ‘ponto estático de contemplação concentrada’.”
Esse ponto estático é o lugar onde a escada termina e começa o estado de quietude desperta que o terceiro texto desta trilogia descreve.
O que vem depois, a libertação final do vidente, é o tema de “Kaivalya, a Unidade Isolada”.
Conclusão
A escada de Bailey é longa e cada degrau tem uma função.
A concentração ensina a mente a fixar-se. A meditação ensina-a a permanecer.
Na contemplação, ela se aquieta sem adormecer, para que a alma veja.
Na iluminação, ela registra o que foi visto, e na inspiração, isso se torna serviço.
Nenhum degrau dispensa o anterior, e nenhum deles pede uma mente vazia.
Pede uma mente desperta, firme e disponível, “mantida ativamente passiva na luz que flui do reino da alma”.
Fontes diretas: From Intellect to Intuition, “Chapter Four, The Objectives in Meditation” (a meditação como processo ordenado), “Chapter Five, Stages in Meditation” (os cinco estágios, a definição de concentração, o hábito da exatidão, a meditação como atividade intensa e a advertência contra a mente vazia), “Chapter Six, Stages in Meditation” (a contemplação como pausa entre duas atividades, a mente ativamente passiva na luz, a consciência perceptora que espera e o registro do que a alma contempla) e “Chapter Nine, The Practice of Meditation, Part 1” (o uso da forma para evitar o estado emocional quiescente); The Light of the Soul, “Book III, Union Achieved and Its Results, Part 1” (sutras 1 a 11 e comentários: dharana, dhyana, samadhi, os doze segundos de Vivekananda, Kecidhvaja, o sanyama e os seus seis resultados, o brilhar da luz e a meditação sem semente); Letters on Occult Meditation, “Letter IV, The Use of the Sacred Word in Meditation, Part 1” (meditação com semente e sem semente); The Soul and Its Mechanism, “Chapter VII, Conclusion” (a contemplação como ato da alma no seu próprio reino); Discipleship in the New Age, Vol. II, “Section Three, Teachings on Initiation, Part 8” (o ponto estático de contemplação concentrada).


