Stillness e Awareness Segundo Alice Bailey: a Quietude e a Consciência do Observador no Centro
Introdução
Este é o terceiro texto de uma trilogia.
“O Vidente e o Visto Segundo Alice Bailey” mostra quem observa.
“Concentração, Meditação e Contemplação Segundo Alice Bailey” descreve a escada pela qual a mente aprende a servir a quem observa.
Este texto trata do estado que une os dois:
uma quietude desperta, que Bailey chama em inglês de stillness, e a consciência que nasce dela, que ela chama de awareness.
Numa carta a um discípulo, Bailey resume o tema numa frase:
“Você vai me compreender, meu irmão, e acreditar em mim quando lhe digo que, para você, a conquista de uma quietude interior é a saída para todos os seus problemas?”
O conselho era pessoal.
Mas a quietude que ela descreve pouco tem a ver com a mente vazia que se costuma imaginar.
Uma Quietude Que Não Adormece
Bailey distingue com cuidado dois tipos de quietude.
Em Letters on Occult Meditation, ela escreve:
“A quietude negativa do corpo emocional o torna receptivo à impressão vinda do alto.
A quietude positiva do corpo mental conduz à inspiração superior.”
A quietude das emoções recebe; a da mente se prepara.
O corpo emocional aquietado recebe um nome delicado em The Light of the Soul: o resultado da purificação é “um espírito quieto, ou a ‘suave quietude’ do veículo, de modo que ele possa refletir adequadamente o princípio crístico, ou a natureza búdica”.
Em Discipleship in the New Age, Vol. I, Bailey descreve a meta do discípulo como “um corpo astral de quietude e de aquiescência, sensível às impressões vindas da alma e do Mestre, e que reflita a visão com tanta pureza de contorno quanto possível”.
A mente quieta, ao contrário, continua desperta.
Na mesma carta em que fala da quietude como saída, Bailey diz ao discípulo que a sua mente intensamente ativa, “que nunca fica quieta um só momento nas suas atividades de construção de formas-pensamento, precisa aprender a repousar quietamente na luz. Precisa aprender simplesmente a refletir, tanto no sentido do pensamento quieto quanto no sentido de uma radiância quieta”.
O Perigo da Quietude Errada
A advertência acompanha o convite.
Em The Light of the Soul, Bailey escreve:
“Muito do trabalho feito sob o nome de meditação é perigoso e inútil, porque aquele que busca o controle é o homem no plano físico, e o seu esforço se concentra na conquista da quietude do cérebro. Ele procura aquietar as células cerebrais e torná-las negativas, quiescentes e receptivas.”
E corrige:
“A verdadeira meditação, porém, diz respeito à alma e à mente; a receptividade do cérebro é uma reação automática à condição superior.”
Em From Intellect to Intuition, ela chega a desaconselhar o famoso versículo para quem está começando:
“Um certo grau de realização e experiência é necessário antes que palavras (tão frequentemente escolhidas por principiantes bem-intencionados) como ‘aquieta-te e sabe que eu sou Deus’ possam ser levadas com segurança ao trabalho de meditação.”
E diz, sem rodeios:
“Mas a atitude do ‘aquieta-te’ não é para nós.
Inibimos as outras atividades mentais por um interesse intenso, e não por um atordoamento mental de nós mesmos até o silêncio.”
A quietude que Bailey pede tem outra natureza.
Numa instrução pessoal, ela a descreve:
sentar-se “em perfeito silêncio e quietude interiores durante quinze minutos, não derivando negativamente para uma condição de semitranse, mas tornando-se ativamente consciente daquele centro interior de quietude e de paz onde a alegria e a bem-aventurança têm a sua morada”.
É a mesma mente “ativamente passiva” da contemplação, descrita no segundo texto desta trilogia, agora vivida como estado.
A Quietude de Quem Dominou a Tormenta
Bailey também não confunde quietude com imobilidade.
A outro discípulo, ela escreve:
“Um discípulo cria as suas próprias crises, e onde uma vida é desprovida de crise (no seu estágio de desenvolvimento) isso significa que o discípulo está parado.”
E logo em seguida:
“Para você, a necessidade é colocar-se no seu círculo de vida como um centro quieto, mas que seja a quietude alcançada pelo domínio da turbulência, e não a quietude de uma poça estagnada.”
A um terceiro, ela pede:
“Habite constantemente na Casa da Quietude, meu irmão, mas não diminua o seu serviço.
Tudo é uma questão de orientação interior e de atitude; não é uma questão de atividade exotérica exterior.”
A atividade pode até se acelerar.
O que muda é a qualidade de quem age, que se torna “mais amorosa, mais próxima do centro e, portanto, mais quieta”.
O Observador no Centro
No centro dessa quietude está o Observador, a mesma figura que o primeiro texto desta trilogia examina do ponto de vista filosófico.
Aqui ele aparece como prática diária.
A um discípulo, Bailey escreve:
“Trabalhe firmemente na assunção da posição do Observador, fazendo dela um hábito da sua vida.”
E pede que ele procure “tomar e manter a posição daquele ‘que está no centro’, levando essa consciência consigo em todos os momentos”.
Para isso, ela lhe dá seis pensamentos-semente, um por mês, e o primeiro diz:
“Eu sou o Observador, Que habita sempre no centro.”
Junto, envia um roteiro de autoexame, a “Revisão sobre a Atitude do Observador”, com vinte e nove perguntas.
Algumas delas:
- “Estou confundindo um rever com um refazer ou com um reviver?”
- “Posso observar a mim mesmo mentalmente, sem a influência de qualquer reação do eu pessoal e emocional?”
- “Posso dizer honestamente que sou capaz de me pôr de lado e observar com isenção?”
- “Posso manter a minha mente firme na luz que flui do Observador? Posso mantê-la como o holofote da alma?”
- “Através de qual corpo me expresso com mais facilidade? Qual dos meus corpos requer mais observação e controle?”
- “Qual é o principal obstáculo à minha prática constante da observação? Como posso compensar essa dificuldade?”
A primeira pergunta já contém um ensinamento inteiro.
Rever o dia como Observador não é reviver o dia.
Quem revive se identifica de novo com o que passou.
Quem observa vê sem voltar a ser arrastado.
Em A Treatise on White Magic, Bailey descreve o ponto de chegada desse hábito:
“O desapego entre o homem e as suas formas utilizáveis será tão completo que ele viverá sempre no ‘assento do Observador’, e desse ponto e atitude dirigirá as atividades da mente, das emoções e das energias que tornam possível e útil a expressão física.”
Em Esoteric Astrology, ao tratar de Escorpião, ela mostra o custo da virada:
o discípulo inverte “a um custo e uma dor tremendos, a sua posição sobre a roda da vida e assume a atitude do Observador, em contraposição à do Experimentador.
As antigas identificações cessam”.
A Indiferença Divina
Se o Observador é a posição, a indiferença divina é a técnica.
Em Discipleship in the New Age, Vol. I, Bailey explica a palavra com cuidado:
“Note o uso da palavra ‘divina’, pois ela contém a chave da atitude necessária.
É algo diferente da indiferença de não se importar, ou da indiferença de uma ‘via de escape’ psicologicamente desenvolvida diante daquilo que não é agradável; nem é a indiferença da superioridade.
É a indiferença que aceita tudo o que é oferecido, usa o que é útil, aprende o que pode ser aprendido, mas não é retida pelas reações da personalidade.
É a atitude normal da alma ou do eu em relação ao não-eu.”
Em outra passagem, Bailey mostra como a técnica funciona diante de uma emoção ou de um glamour: eles devem ser “reconhecidos pelo que são, e evocar em você aquela ‘indiferença divina’ que permite que a emoção ou o glamour morram de atrito, porque privados do ‘poder de alimentação’ da atenção”.
E acrescenta:
“Toda a história do verdadeiro controle emocional encontra-se na frase que acabo de dar.”
Para quem trabalha com o campo emocional, essa frase tem consequências práticas.
A emoção que não é combatida nem alimentada perde força.
A um discípulo, Bailey diz o mesmo de modo mais simples:
lide com os estados de ânimo “não lutando, mas substituindo-os por outros interesses, ignorando-os e tratando-os com indiferença até que morram por falta de atenção e por um lento atrito”.
Em Glamour: A World Problem, a técnica recebe a sua definição mais exata: a indiferença “significa na realidade a conquista de uma atitude neutra em relação àquilo que é considerado o Não-eu”, e “é repúdio ativo sem nenhuma concentração sobre aquilo que é repudiado”.
Quem a pratica, diz Bailey, “permanece livre e liberto e é essencialmente, em todos os momentos, o Observador e o Usuário do aparelho de manifestação”.
E ela localiza essa liberdade num ponto preciso:
o discípulo “mantém-se firme e estável neste ponto de tensão”.
Aprender a Ficar de Pé, Parado
O ensinamento mais forte sobre a quietude aparece nas fórmulas dos raios, em Esoteric Psychology, Vol. II. Para cada raio, Bailey dá uma palavra-chave de integração.
Para o primeiro, inclusão.
Para o segundo, centralização.
Para o terceiro, a palavra é quietude.
O terceiro raio é o raio da mente ativa, dos que tecem planos sem parar.
A eles, a alma diz:
“Aquieta-te. Aprende a permanecer silencioso, quieto e sem medo.
Eu, no centro, Sou.”
E Bailey comenta:
“É esta quietude imposta que produz o verdadeiro alinhamento.
Esta é a quietude não da meditação, mas do viver.”
Aos aspirantes desse raio, dá-se com frequência um aforismo antigo:
“Cessa o teu fazer.
Não caminhes no Caminho até que tenhas aprendido a arte de permanecer parado.
Estuda a aranha, irmão, que não se enreda na sua própria teia, como tu hoje estás enredado na tua.”
Bailey não esconde que essa parada tem um preço.
O alinhamento evocado por esse “pacífico permanecer parado” produz uma crise, “uma crise que parece deixá-lo destituído de incentivo, de motivo, de sensação, de apreciação dos outros e de propósito de vida”.
A orientação para esse momento é esta:
“Que ele permaneça parado no centro, fixando os olhos na alma e cessando a atividade por um breve período, até que a luz irrompa.”
Ela também avisa que a palavra tem um risco quando usada fora do lugar:
“A personalidade de terceiro raio, enfatizando a quietude, poderia por exemplo descer aos lamaçais da letargia.”
A quietude é uma palavra de poder, e “deve ser empregada à luz da alma”.
O Vazio Que Assusta
Há um momento em que a quietude parece vazia.
Em A Treatise on White Magic, Bailey descreve os intervalos que todo discípulo conhece, em que, “pelo desapego e pela capacidade de se retirar, ele não é retido por nada no mundo da forma”.
Como ainda não alcançou a perfeição, “esses intervalos de silêncio, de recolhimento e de desapego são frequentemente difíceis e escuros.
Tudo é silêncio, e ele fica aterrado diante do desconhecido e da quietude aparentemente vazia em que se encontra.
Isto é chamado, em casos avançados, de ‘a noite escura da alma’, o momento antes da aurora, a hora antes que a luz jorre”.
A palavra “aparentemente” importa. Na mesma passagem, Bailey liga esses intervalos à contemplação, “aquela ‘pausa entre duas atividades'”, na qual a alma “está em repouso e em paz”.
O que parece vazio a quem ainda não chegou é, no sentido mais alto, a própria contemplação.
A Quietude na Origem
Bailey também coloca a quietude na origem das coisas.
Em Letters on Occult Meditation: “Do Silêncio do Absoluto foi projetado o universo.
Da escuridão surgiu a luz, do subjetivo emanou o objetivo.”
Em Esoteric Astrology, ela cita uma frase esotérica sobre Áries:
“Antes da criação, o silêncio e a quietude de um ponto focalizado.”
Em Esoteric Psychology, Vol. II, ela descreve o mago de sétimo raio de pé sob um arco entre duas salas.
Uma estava cheia de movimento e de caos sem forma.
A outra estava “cheia de luz, de vida e de poder, de uma quietude que era propósito e de uma beleza que era espaço”.
O mago olhava para o caos e estava “de costas para a sala da quietude viva. Ele não a conhecia”.
E em Discipleship in the New Age, Vol. II, entre as coisas que o iniciado percebe quando uma revelação se abre diante dele, está “a quietude pela qual a visão reveladora é envolvida”.
Em Initiation, Human and Solar, ao descrever a cerimônia de iniciação, Bailey fala do momento que precede a aplicação do Cetro como “um intervalo de quietude antes de um período de atividade renovada”.
Uma Prática Simples
Bailey dá a um discípulo um pedido que parece pequeno:
“Sente-se quieto todos os dias, sem falta, durante uma hora, recusando-se a interromper o silêncio e a quietude dessa hora.
Simplesmente relaxe, descanse, leia e pense com alegria, mas não deixe que nada, exceto uma emergência real, quebre o ritmo desse período.
Sente-se quieto, sem tensão, mas sereno e relaxado.”
E acrescenta:
“É algo pequeno a pedir, mas se você se conformar a esta exigência, os resultados poderão ser mais potentes do que você imagina.”
Mais adiante, resume:
“Amor e quietude, e não ressentimento e inquietação, são a sua tarefa imediata.”
Ao discípulo de mente excessivamente ativa, ela propõe os quinze minutos de silêncio já citados e depois o retorno ao serviço: quando você sentir “que todos os seus corpos estão aquietados e que você ‘voltou para casa, para o lugar do repouso silencioso e santo’, então dedique-se ao serviço do Plano”.
Conclusão
A quietude que Bailey ensina é uma forma de presença.
Ela começa pelas emoções, que se aquietam para refletir, e pela mente, que se firma para receber.
Toma forma na posição do Observador, que vê sem ser arrastado. Atua pela indiferença divina, que deixa morrer o que não é alimentado.
Tem a sua crise no “permanecer parado” e no silêncio que parece vazio.
E reencontra a sua origem no ponto focalizado que precede toda criação.
O primeiro texto desta trilogia mostra quem observa, e o segundo, a escada da mente.
Este mostra o lugar de onde se observa.
É o centro onde, nas palavras de Bailey, “a alegria e a bem-aventurança têm a sua morada”, e de onde o discípulo volta ao mundo para servir.
Fontes diretas: Discipleship in the New Age, Vol. I, “Section One, Discipleship in the New Age, Part 3” (o corpo astral de quietude e a definição de indiferença divina) e “Part 4” (a emoção que morre de atrito), “Section Two, Personal Instructions to Disciples (Continued), Part 3” (a posição do Observador, os pensamentos-semente e a Revisão sobre a Atitude do Observador), “Part 5” (os estados de ânimo tratados com indiferença), “Part 6” (a hora diária de quietude), “Part 7” (o centro quieto e a poça estagnada) e “Part 9” (a quietude interior como saída, a Casa da Quietude e os quinze minutos de silêncio); Discipleship in the New Age, Vol. II, “Section Three, Teachings on Initiation, Part 6” (a quietude que envolve a visão reveladora); Letters on Occult Meditation, “Letter XI, The Resultant Life of Service” (a quietude negativa e a positiva e o Silêncio do Absoluto); The Light of the Soul, “Book II, The Steps to Union, Part 4” (a suave quietude do veículo) e “Book IV, Illumination, Part 2” (o perigo da quietude do cérebro); From Intellect to Intuition, “Chapter Nine, The Practice of Meditation, Part 2” (a atitude do “aquieta-te”); A Treatise on White Magic, “The Esoteric Sense” (o assento do Observador) e “The Science of the Breath” (a quietude aparentemente vazia e a noite escura da alma); Esoteric Astrology, “3. Spiritual Effects of the Zodiacal Constellations, Part 6” (Escorpião, o Observador e o Experimentador) e “Part 7” (o silêncio e a quietude de um ponto focalizado); Glamour: A World Problem, “Section Three, The Ending of Glamour, Part 4” (a Técnica da Indiferença e o ponto de tensão); Esoteric Psychology, Vol. II, “2. The Coordination of the Personality, Part 1 e Part 2” (a fórmula do terceiro raio, a arte de permanecer parado e a palavra quietude) e “II. The Seven Laws of Soul or Group Life, Part 4” (o mago de sétimo raio e a quietude que era propósito); Initiation, Human and Solar, “Chapter XIII, The Rods of Initiation” (o intervalo de quietude).


