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O Vidente e o Visto Segundo Alice Bailey: Quem Observa e o Que É Observado

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O Vidente e o Visto Segundo Alice Bailey: Quem Observa e o Que É Observado

Introdução

Este é o primeiro texto de uma trilogia.

O segundo, “Concentração, Meditação e Contemplação Segundo Alice Bailey”, descreve a escada que a mente sobe.

O terceiro, “Stillness e Awareness Segundo Alice Bailey”, descreve o estado de quem aprendeu a permanecer no centro.

Os dois dependem de uma pergunta anterior, e é dela que tratamos aqui: quem é que observa?

Alice Bailey responde a partir de um sutra de Patanjali que ela considera decisivo.

Para ela, confundir quem vê com aquilo que é visto é a origem de toda a dor humana.

Desfazer essa confusão é o trabalho de muitas vidas.

Uma Ilusão na Raiz da Dor

O sutra 17 do segundo livro dos Yoga Sutras, na versão de Bailey, diz:

“A ilusão de que o Perceptor e aquilo que é percebido são um e o mesmo é a causa (dos efeitos produtores de dor) que deve ser evitada.”

No comentário, ela situa o tema no ponto mais fundo da sua cosmologia:

“Este sutra nos traz de volta à grande dualidade básica da manifestação, a união de espírito e matéria.”

E traduz essa dualidade para a vida de cada pessoa:

“Toda dor e tristeza é causada pelo homem espiritual que se identifica com as suas formas objetivas nos três mundos e com o reino dos fenômenos em que essas formas têm as suas atividades.

Quando ele consegue se desapegar do reino dos sentidos e conhecer a si mesmo como ‘aquele que não é aquilo que é visto, tocado e ouvido’, então pode libertar-se de todas as limitações da forma e permanecer à parte como o divino perceptor e ator.”

A frase seguinte impede uma leitura de fuga:

“Ele usará as formas como desejar, a fim de alcançar certos fins específicos, mas não é iludido a ponto de considerá-las como sendo ele mesmo.”

O homem livre continua a usar o corpo, as emoções e a mente.

O que muda é que deixou de confundir-se com eles.

Em The Consciousness of the Atom, Bailey descreve o mesmo processo como o sentido da evolução.

Chega um momento em que aprendemos “a distinguir entre o eu e o não-eu, entre o real e o irreal, entre a vida dentro da forma e a forma que ela usa, entre o conhecedor e aquilo que é conhecido”.

E conclui:

“Aqui temos todo o objetivo da evolução, a conquista da consciência do eu real por meio do não-eu.”

O caminho até lá passa pela identificação, e Bailey não a condena:

“Passamos por um longo período ou ciclo de muitas vidas em que nos identificamos com a forma, e somos tão um com o não-eu que não reconhecemos diferença alguma, inteiramente ocupados com as coisas que são transitórias e impermanentes.

É essa identificação com o não-eu que conduz a toda a dor, insatisfação e tristeza do mundo, e contudo devemos lembrar que, por meio dessa reação do eu ao não-eu, inevitavelmente aprendemos, e finalmente nos libertamos do impermanente e do irreal.”

Seis Maneiras de Dizer a Mesma Coisa

Para que o estudante não fique preso a uma única palavra, Bailey oferece uma série de triplicidades e pede que se aprenda “a sustentar a consciência de que, nos três mundos”, o homem espiritual “é o fator mais elevado” em cada uma delas:

SujeitoProcessoObjeto
O PerceptorA PercepçãoAquilo que é percebido
O PensadorO PensamentoAs formas-pensamento
O ConhecedorO ConhecimentoO campo do conhecimento
O VidenteA VisãoAquilo que é visto
O ObservadorA ObservaçãoAquilo que é observado
O EspectadorA VisãoO Espetáculo

Em todas as linhas, a mesma estrutura: alguém que conhece, o ato de conhecer e o que é conhecido.

O sofrimento nasce quando o primeiro termo se perde no terceiro.

Daí o objetivo que Bailey atribui ao Raja Yoga:

“libertar o pensador das modificações do princípio pensante, de modo que ele não mais se funda no grande mundo das ilusões do pensamento nem se identifique com aquilo que é puramente fenomênico.

Ele permanece livre e desapegado e usa o mundo dos sentidos como o campo das suas atividades inteligentes”.

O Vidente É Conhecimento Puro

O sutra 20 define o primeiro termo de todas essas triplicidades:

“O vidente é conhecimento puro (gnosis).

Embora puro, ele olha para a ideia apresentada por meio da mente.”

Bailey cita também a tradução de Johnston, mais visual:

“O vidente é visão pura. Embora puro, ele olha para fora através da vestimenta da mente.”

O Vidente, portanto, nunca se suja.

O que se turva é a vestimenta pela qual ele olha.

E Bailey dá a este sutra um peso raro:

“Este sutra é um dos versos-chave do livro, e dá a chave de toda a ciência do yoga.”

Ela vai além e transforma o verso em prática:

“Ele tem um efeito mântrico e, se enunciado como afirmação e usado constantemente pelo aspirante, acabará por demonstrar-lhe a verdade da afirmação ‘assim como o homem pensa, assim ele é’.”

A afirmação proposta é esta:

“Eu sou conhecimento puro.

Embora puro, eu olho para as ideias apresentadas por meio da mente.”

A expressão “ideia apresentada” também tem sentido preciso.

Para Bailey, “toda forma que passa diante do espectador no grande panorama da vida nos três mundos é uma ‘ideia apresentada'”.

Por isso, “a tarefa do ocultista é trabalhar com a força que está por trás de cada forma e não tanto com a forma, que é apenas o efeito de alguma causa”.

O Visto e as Suas Três Qualidades

Do outro lado da dualidade está o que é visto. O sutra 18 o descreve:

“Aquilo que é percebido tem três qualidades, sattva, rajas e tamas (ritmo, mobilidade e inércia); consiste dos elementos e dos órgãos dos sentidos.

O uso destes produz experiência e eventual libertação.”

A última frase muda o tom de tudo o que veio antes.

O mundo visto é o campo onde a alma aprende e, pelo uso correto, o meio da sua libertação.

Para quem trabalha com leitura energética, os três gunas oferecem uma linguagem simples para descrever um estado:

há momentos de ritmo e harmonia, momentos de agitação e momentos de inércia, e nenhum deles é a pessoa que os atravessa.

O sutra 21 completa o quadro:

“Tudo o que existe, existe em benefício da alma.”

Bailey se apressa em corrigir a leitura vaidosa:

“O homem, na sua arrogância, não deve entender este sutra como se tudo o que foi criado existisse para ele.

O sentido é muito mais amplo.

A alma a que se refere é a do Ser Supremo, da qual a alma do homem é apenas uma parte infinitesimal.”

E o sutra 22 descreve o que acontece quando a confusão termina:

“No caso do homem que alcançou o yoga (ou a união), o universo objetivo deixou de ser.

Contudo, ele ainda existe para aqueles que ainda não são livres.”

Bailey diz que este verso “contém o germe de toda a ciência do pensamento”, porque parte da percepção de que “tudo o que contemplamos são modificações da substância do pensamento, de que o pensador cria o seu próprio mundo, seja ele Deus ou homem”.

A Ignorância e o Discernimento

Se a identificação produz a dor, o que produz a identificação? O sutra 24 nomeia a causa:

a ignorância, avidya.

O sutra 25 descreve o fim:

“Quando a ignorância é levada ao fim pela não associação com as coisas percebidas, esta é a grande libertação.”

Bailey descreve a situação da alma encarnada sem rodeios:

“Durante o processo de encarnação, o vidente, a alma, está submerso na grande maya ou ilusão.

Ele está aprisionado pelas suas próprias formas-pensamento e criações de pensamento, e também pelas dos três mundos.

Ele se considera parte do mundo fenomênico.”

E adverte contra a pressa:

“Este processo é progressivo e não pode ser efetuado de uma só vez.”

O instrumento da libertação aparece no sutra 26:

“O estado de escravidão é superado pelo discernimento perfeitamente mantido.”

Bailey o chama de “o primeiro grande método para alcançar a libertação” e descreve como ele cresce: o discernimento “é a princípio uma atitude da mente e deve ser cultivado com diligência”.

O aspirante “procura, nos assuntos de cada dia, cultivar uma consciência do real e uma negação do irreal, e leva isso a todos os seus relacionamentos e a todos os seus assuntos”.

A passagem que mais interessa a quem vive no mundo comum é a que mostra a distinção descendo de nível em nível:

“Esta distinção é a princípio teórica, depois intelectual, mas mais tarde assume mais realidade e entra nos acontecimentos do mundo emocional e físico.”

Depois do discernimento, diz Bailey, vem a próxima qualidade, “a impassibilidade ou ausência de desejo”.

Saber distinguir o real do irreal ainda não basta enquanto o desejo continuar a correr atrás do irreal.

O Observador Diante de uma Emoção

Em Discipleship in the New Age, Vol. II, Bailey responde a um discípulo que perguntava por que é tão difícil separar pensamento de emoção.

A primeira razão que ela dá é a posição de quem observa:

“O ponto na evolução do Observador, que determina em grande parte o campo da sua observação e o foco da sua atenção dirigida.”

E descreve o mecanismo com uma precisão que qualquer pessoa pode testar num dia difícil.

A emoção reconhecida “é o resultado de uma medida de discernimento que permite ao Observador perceber que está passando por uma emoção, ou atravessando uma crise emocional”.

Sentir não basta para criar essa distância. A distância nasce quando a mente entra:

“É o pensamento, com a sua faculdade de discernir e analisar, que nos torna conscientes dessa maya na qual caminhamos incessantemente.

O pensamento lança uma luz clara na névoa e nas brumas do plano astral.”

É o primeiro gesto do Vidente na vida prática: perceber que há uma emoção acontecendo, e que quem percebe é outro.

Do Conhecimento à Sabedoria

Em The Rays and the Initiations, Bailey identifica um obstáculo que acompanha a humanidade há séculos:

“o antigo hábito da humanidade de materializar todo conhecimento.

Tudo o que o homem aprende é aplicado, à medida que os séculos passam, ao mundo dos fenômenos naturais e do processo natural, e não ao reconhecimento do Eu, do Conhecedor, daquele que Contempla, do Observador.”

A mudança acontece quando o conhecimento passa a ser referido a quem conhece:

“Quando, portanto, o homem entra no Caminho, tem de educar-se no processo de usar o conhecimento em referência à Identidade consciente e consciente de si, ou ao Indivíduo autocontido e que toma a iniciativa por si.

Quando consegue fazer isso, está transmutando conhecimento em sabedoria.”

Um Observador Que Ainda É Dois

Bailey não deixa que o Observador se torne a última palavra.

Em Telepathy and the Etheric Vehicle, ela admite o limite da imagem:

“o uso da palavra ‘observador’ envolve o conceito de dualidade e, portanto, de separação”.

O que redime essa separação é o motivo:

“Neste caso, porém, o motivo que impulsiona a observação não é o interesse próprio, mas a determinação de clarificar a aura”, para que ela registre apenas o que serve ao Plano e à humanidade.

Em The Rays and the Initiations, ela distingue dois Observadores.

Há o do início do caminho, ainda mergulhado na experiência, e há o do discípulo avançado, que vê a vida “como a Hierarquia a vê”:

“Isto significa que a vida é abordada do ângulo do Observador e não do de um participante na experimentação e na experiência efetivas nos três mundos.

Este Observador é diferente do Observador no Caminho Probatório.

A maior parte da experimentação e da experiência foi deixada para trás, e uma nova orientação para um mundo de valores, mais elevado até do que o mundo do significado, se estabeleceu.”

Onde a Dualidade se Dissolve

O ponto de chegada é a unidade que a dualidade servia para revelar.

Em A Treatise on White Magic, Bailey o descreve com a imagem do Bhagavad Gita:

“é no campo de Kurukshetra que o Arjuna individual que aspira, e o Arjuna cósmico, aprendem a lição de que o conhecedor e o conhecido são um”.

A mesma passagem diz que o objetivo dos Mestres é “deixar entrar a luz da alma e mostrar que espírito e matéria são as duas realidades que constituem a unidade”.

O Vidente e o Visto são dois polos de uma só realidade, separados por um tempo para que a consciência pudesse se reconhecer.

Conclusão

Toda a obra de Bailey sobre o autoconhecimento se apoia nesta distinção.

Primeiro, percebe-se que há algo que vê e algo que é visto.

Depois, aprende-se a manter essa percepção no meio da emoção, do pensamento e do trabalho diário.

Por fim, descobre-se que a distância criada pelo Observador era uma etapa, e que o conhecedor e o conhecido sempre foram um.

Como se sustenta essa percepção no tempo, Bailey descreve na escada da concentração, da meditação e da contemplação, tema do segundo texto desta trilogia.

E o estado de quem a sustenta, a quietude que observa a partir do centro, é o tema do terceiro:

“Stillness e Awareness Segundo Alice Bailey: a Quietude e a Consciência do Observador no Centro”.

Fontes diretas: The Light of the Soul, “Book II, The Steps to Union, Part 1 e Part 2” (sutras 17 a 26 e comentários: a ilusão de identidade entre Perceptor e percebido, as triplicidades, o vidente como conhecimento puro e a afirmação de efeito mântrico, os três gunas, a ignorância, a grande libertação e o discernimento); The Consciousness of the Atom, “Lecture V” (a distinção entre o eu e o não-eu como objetivo da evolução); Discipleship in the New Age, Vol. II, “Section Four, Personal Instructions to Disciples, Part 8” (o Observador e a distinção entre pensamento e emoção); The Rays and the Initiations, “Section One, The Aspirant and the Mysteries of Initiation, Part 5” (a transmutação do conhecimento em sabedoria) e “Rule Four” (os dois Observadores); Telepathy and the Etheric Vehicle, “Section One, Teaching on Telepathy, Part 4” (a dualidade implícita na palavra observador); A Treatise on White Magic, “The Negation of the Great Illusion” (o conhecedor e o conhecido são um).

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