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A Arte de Morrer

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A Arte de Morrer

Um mergulho em Esoteric Healing, o livro mais denso de Alice Bailey

Imagine uma morte que todos concordaram em celebrar

Existe uma pergunta que Alice Bailey faz em Esoteric Healing e que a maioria dos leitores atravessa sem parar.

Ela pergunta se é impossível conceber um tempo em que o ato de morrer seja um final triunfante da vida. Se é impossível visualizar um tempo em que as horas passadas no leito de morte sejam apenas um prelúdio glorioso de uma saída consciente. Se conseguimos imaginar um tempo em que, em vez de lágrimas e medos, a pessoa que parte e aqueles que ficam concordem mutuamente sobre a hora, e nada além de felicidade caracterize a passagem.

Leia de novo.

Concordem mutuamente sobre a hora.

Não a família reunida em desespero tentando adiar o inevitável. Não os aparelhos ligados por mais três dias porque ninguém consegue dizer basta. Não o silêncio constrangido onde ninguém menciona a palavra morte na frente de quem está morrendo, como se o moribundo fosse o único na sala que não sabe.

Uma hora escolhida. Em comum acordo. Com serenidade de ambos os lados.

Bailey escreve isso em 1953. E pergunta se é impossível.

Para praticamente todos nós, é.

E é exatamente aí que começa este artigo.

Porque a razão pela qual essa cena parece impossível não tem nada a ver com a morte em si. Tem a ver com o que acreditamos que a morte é. E o que acreditamos que a morte é está, segundo Bailey, quase inteiramente errado.

Este artigo é sobre o que ela revela nos Capítulos V, VI e VII de Esoteric Healing, a parte do livro dedicada inteiramente ao processo da morte. E a razão pela qual essa parte existe num livro sobre cura é mais simples e mais radical do que parece.

É impossível curar quem tem medo de morrer.

E a maioria dos curadores tem.

O nascimento é mais solitário que a morte

Pensamos na morte como a experiência mais solitária que um ser humano pode atravessar. Partir sozinho. Deixar todos para trás. Atravessar uma porta que ninguém atravessa com você.

Bailey descreve o oposto, e com todas as letras.

A solidão que se segue à morte, quando o ser se encontra sem veículo físico, não é nada comparada à solidão do nascimento.

Ao nascer, a alma se encontra em ambiente inteiramente novo, imersa num corpo que a princípio é totalmente incompetente para cuidar de si mesmo ou estabelecer contato inteligente com as condições ao seu redor, e assim permanece por um longo período. O ser chega à encarnação sem nenhuma recordação da identidade ou do significado que têm para ele as almas em corpos com quem se encontra em relação. Essa solidão só desaparece gradualmente, à medida que constrói seus próprios contatos e eventualmente reúne ao seu redor aqueles a quem chama de amigos.

Após a morte não é assim.

O ser encontra, do outro lado do véu, aqueles que conhece e que estiveram conectados a ele na vida física. E nunca está só, no sentido em que os seres humanos compreendem a solidão. Está também consciente dos que permanecem em corpos físicos. Consegue vê-los. Consegue sintonizar em suas emoções e em seus pensamentos, porque o cérebro físico, sendo inexistente, já não atua como impedimento.

Bailey então escreve a frase que fecha a inversão: se as pessoas soubessem mais, seria o nascimento que temeriam, não a morte. Porque o nascimento estabelece a alma na verdadeira prisão, e a morte física é apenas o primeiro passo em direção à libertação.

A morte não separa.

O nascimento separa.

E se isso for verdade, então tudo que construímos ao redor do morrer está invertido. O terror, a negação, a medicalização extrema dos últimos dias. Tudo isso é resposta a um evento que compreendemos ao contrário.

Isso também explica por que Bailey dedica um terço de um livro sobre cura ao tema da morte.

Não como metáfora. Não como morte do ego ou morte simbólica. Da morte literal, o processo físico e energético pelo qual a alma retira sua presença do corpo.

A posição da Parte II no livro não é acidente editorial. É estrutura. A primeira parte trata das causas da doença. A terceira trata das leis e técnicas de cura. E a segunda, bem no meio, trata inteiramente da morte.

Quem quer aprender a curar precisa atravessar a morte antes de chegar à técnica.

A razão é direta. Existem pacientes cuja hora chegou. Cuja alma já tomou a decisão. Cujo karma indica que o ciclo desta encarnação está completo e que nenhuma intervenção vai alterar esse fato.

O curador que não reconhece esse sinal continua trabalhando. Continua enviando energia. Continua tentando reverter o que já foi decidido num nível ao qual não tem acesso. E o resultado não é compaixão. É resistência ao processo.

Bailey faz uma afirmação no Capítulo V que muda completamente o enquadramento: a morte é governada pelo Princípio da Libertação, não pelo Princípio da Limitação.

Morte como limitação é derrota. É o fracasso do corpo, da medicina, do curador, da própria vontade de viver.

Morte como libertação é o oposto. É o momento em que algo contido se solta. Em que a vida deixa de ser limitada por uma forma que já cumpriu seu propósito.

O artigo que sucede este na série revelou o trabalho do curador esotérico, e revelou também o momento mais difícil de toda a prática, que é reconhecer quando as energias param de entrar no campo do paciente.

Quando isso acontece, o curador sabe que a alma se retirou da negociação.

Este artigo descreve o que acontece com quem parte a partir desse momento.

Nem toda morte é a mesma morte

Bailey escreve uma frase sobre a Segunda Guerra Mundial que atravessa oito décadas sem perder o poder de chocar.

Ela está falando de milhões de mortos. Dos campos de batalha, dos bombardeios, das cidades destruídas. E afirma o seguinte:

Não houve destruição de seres humanos.

E completa pedindo explicitamente que o leitor note essa afirmação.

A frase é insuportável se lida rápido. E é libertadora se lida devagar.

Porque Bailey faz, ao longo do Capítulo V, uma distinção que praticamente nenhum texto sobre morte faz: nem toda morte opera sob as mesmas leis.

A morte por doença e por velhice é um ato de restituição. A alma reconhece que o ciclo está completo, emite o que Bailey chama de descarga de energia da vontade, e retira os fios que mantinham o corpo coeso. Isso obedece integralmente à Lei de Causa e Efeito no nível individual. É karma pessoal trabalhando através do corpo físico.

A morte em massa por guerra não é isso.

Bailey afirma explicitamente que quando vastos números de pessoas são mortos, isso não tem relação com a Lei de Causa e Efeito como fator na carreira da alma de nenhum indivíduo. Não é ato de restituição planejado por almas individuais trabalhando seu destino pessoal. É processo diretivo do Logos Planetário, operando a partir da Câmara do Conselho em Shamballa.

Isso responde uma das perguntas mais dolorosas que qualquer ser humano já fez diante de uma tragédia coletiva: por que eles? Por que aquelas pessoas específicas, naquele lugar, naquele momento?

A resposta de Bailey é que, em casos de guerra e catástrofe coletiva, às vezes não há razão individual alguma.

E é por isso que a afirmação sobre a Segunda Guerra faz sentido. As formas foram destruídas. Os seres não. Do ponto de vista de quem vê apenas a forma, isso é aniquilação. Do ponto de vista hierárquico, é libertação em massa.

Bailey vai além e afirma algo ainda mais difícil de processar: precisamente por causa dessa destruição em escala inédita, a humanidade fez um avanço muito rápido em direção a uma atitude mais serena em relação à morte. O que parecia pura tragédia teve, do ponto de vista evolutivo, uma função.

Isso não justifica a guerra. Bailey é explícita: são os motivos daqueles que originam guerras no plano físico que os tornam maus. A guerra é evidência de separatividade levada ao extremo. Mas o efeito da morte em massa sobre a consciência coletiva foi, segundo ela, acelerar a perda do medo.

E então Bailey define o assassinato de uma forma que ninguém espera.

O pecado do assassinato, escreve ela, baseia-se no fato de que interfere no propósito da alma. E não realmente na morte de um corpo físico particular.

Matar é grave porque interrompe algo que a alma estava construindo. Porque rouba de um ser a oportunidade de completar o que veio completar. Não porque destrói matéria organizada.

Sobre o suicídio, Bailey é breve. Afirma que a compreensão correta da morte tenderá a diminuir sua incidência, porque remove o desespero que o alimenta. Quando a morte deixa de ser vista como porta de saída e passa a ser compreendida como evento regido por lei, momento e propósito, ela deixa de funcionar como solução para o insuportável. Isso não elimina a dor de quem sofre. Remove a ilusão de que antecipar o fim resolve algo.

Nem toda morte é a mesma morte.

E saber disso muda como acompanhamos quem parte. Muda também o que fazemos com o que sentimos quando alguém parte sem que consigamos entender por quê.

Morrer não é um evento. É uma sequência de três processos que a consciência pode aprender a navegar.

A morte tem anatomia.

Essa é provavelmente a contribuição mais concreta de Esoteric Healing ao tema. Bailey não trata a morte como mistério insondável nem como passagem vaga para um lugar indefinido. Trata como processo com etapas identificáveis, com mecanismos descritos, com variações previsíveis conforme o ponto evolutivo de quem parte.

São três processos, em sequência.

O primeiro é a Restituição.

A palavra é precisa e Bailey a escolhe com cuidado. Restituir é devolver algo que foi tomado emprestado. E o corpo físico, segundo ela, é exatamente isso: substância tomada emprestada do reservatório planetário, organizada temporariamente pela presença da alma, e devolvida quando o propósito se cumpre.

Nesse processo, a alma retira os dois fios que mantinham o corpo vivo. O fio da vida, ancorado no coração. O fio da consciência, ancorado na cabeça. Quando ambos se retiram, o corpo perde a coerência que o mantinha unido e os átomos que o formavam retornam ao estado anterior.

E aqui Bailey faz uma observação prática que quase ninguém associa ao tema.

A cremação favorece a clareza do ser que acaba de partir. Bailey escreve no Capítulo VI que imediatamente após a morte, e particularmente se a cremação ocorreu, o ser em seu corpo kama-manásico está tão consciente e alerta ao seu ambiente quanto estava no plano físico quando vivo.

Não é detalhe menor. A cremação interfere na qualidade de consciência com que o ser atravessa os primeiros momentos.

E há uma dimensão planetária nisso. Bailey afirma que o uso crescente do fogo como meio de purificação, tanto em relação ao solo do planeta quanto ao corpo humano, fará muito pela saúde coletiva. O fogo purifica o que o enterramento acumula.

Cremar não é apenas prático. É contribuir para a clareza de quem parte e para a limpeza do campo planetário.

O segundo processo é a Eliminação.

Uma vez livre do corpo físico e etérico, a consciência se encontra no plano astral. E precisa agora dissolver o corpo astral, o veículo do desejo e da emoção.

Esse processo varia completamente conforme o ponto evolutivo do ser.

Para o ser kâmico, aquele cuja vida foi quase inteiramente governada pelo desejo, a dissolução acontece por atrito. Não há mais corpo físico para alimentar o desejo. O desejo se esgota lentamente, sem nada que o sustente, até que o astral se desfaz por falta de combustível.

Para o ser kama-manásico, em que emoção e mente já disputam espaço, o crescente desejo de vida mental atua como força de tração. A consciência é puxada para cima pelo interesse mental, e o astral se desprende progressivamente.

E para o ser manásico, aquele que já vive polarizado mentalmente, a dissolução é deliberada.

Bailey afirma que esses seres usam Palavras de Poder comunicadas ao discípulo através do Ashram do seu Mestre para destruir conscientemente o corpo mental. Não esperam que o processo aconteça. Realizam o processo.

Quanto mais desenvolvido o ser, mais consciente e mais rápido o desprendimento.

O terceiro processo é a Integração.

A consciência, agora livre de corpo físico, etérico e astral, é reabsorvida no mundo das almas. Volta à sua fonte.

E ali, num estado que Bailey descreve como período de reflexão, o ser processa a encarnação que terminou, isola os fatores que condicionarão a próxima, e eventualmente se prepara para descer novamente.

A morte não é um fim.

É o começo de uma sequência que termina num novo começo.

A consciência não sai do corpo pelo mesmo lugar em todos os seres, e isso revela tudo sobre a vida que foi vivida

Existe um detalhe técnico no Capítulo V que muda completamente a forma de acompanhar alguém que está morrendo.

A consciência não sai do corpo pelo mesmo ponto em todas as pessoas.

Bailey descreve com precisão o que determina a diferença: o ponto de polarização da consciência durante a vida.

No processo de restituição, a alma retira os dois fios que mantinham o corpo coeso, o fio da vida ancorado no coração e o fio da consciência ancorado na cabeça. Mas o caminho de saída da consciência não é idêntico para todos.

No ser emocionalmente polarizado, que é a condição da vasta maioria da humanidade atual, o foco de vida está no plexo solar. É ali que a experiência se organiza. É ali que o desejo opera. É ali que a consciência habita, mesmo sem saber que habita.

E é por ali que a consciência se retira na hora da morte.

Bailey afirma isso diretamente. Para o homem médio, a alma deixa o corpo via plexo solar, não via cabeça. E ao se retirar por ali, carrega consigo o que estava ancorado naquele centro: os padrões emocionais não resolvidos, os desejos não completados, as ligações que ainda prendem esse ser ao plano físico.

No discípulo e no iniciado, mentalmente polarizados, o quadro é outro.

O centro de gravidade da consciência se deslocou. Não vive mais no plexo solar. Vive na cabeça, no centro ajna, ou em ambos simultaneamente. E é por esses centros superiores que a retirada acontece.

É uma saída mais limpa. Mais consciente. Mais deliberada.

E há uma consequência direta disso para o trabalho do curador esotérico.

Bailey afirma no Capítulo V que é o reconhecimento da condição dos centros que permite ao iniciado saber, durante o processo de cura, se a cura física do corpo é permissível ou não. Ele observa o campo. Vê onde a energia está se movendo. E entende o que está acontecendo.

Mas há mais. Ao observar por onde a retirada está ocorrendo, o curador compreende também em que nível esse ser esteve polarizado ao longo da vida inteira.

A morte revela o que a vida escondia.

Não como julgamento. Como informação. O modo de partir é a assinatura energética de como se viveu. E essa assinatura não mente, não performa, não se disfarça nos últimos momentos.

Isso coloca uma questão desconfortável para qualquer pessoa que leve o tema a sério. Não sobre como vamos morrer, mas sobre onde estamos vivendo agora.

Se a saída acontece pelo ponto onde a consciência habitou, então o trabalho de deslocar o centro de gravidade da vida, do desejo para a mente, da reação para o propósito, não é desenvolvimento espiritual abstrato.

É preparação concreta para o momento da partida.

E quando essa partida se completa, quando o corpo já ficou para trás e a consciência se encontra livre, começa algo que Bailey descreve com uma precisão que nenhuma tradição articulou nos mesmos termos.

Nos primeiros momentos após a morte, a consciência faz três escolhas que determinam a próxima vida

Bailey descreve quatro atividades em sequência, nos momentos que se seguem à separação do corpo físico.

A primeira é clareza.

Sem o filtro do cérebro físico, a percepção se torna nítida de uma forma desconhecida em vida. Bailey descreve isso não como iluminação mística mas como remoção de obstáculo. O cérebro físico sempre foi um redutor. Recebia muito e transmitia pouco. Quando deixa de operar, o que chega à consciência chega sem redução.

Isso significa que o ser recém-partido percebe mais, não menos. É o oposto da imagem cultural do fantasma confuso vagando sem entender o que aconteceu.

A segunda é o encontro com a própria alma.

Um momento fora do tempo em que toda a vida que acabou de terminar se revela como um mapa completo. Não como julgamento. Como visão panorâmica.

Bailey usa uma imagem simples para descrever o que acontece nesse instante. Diz que o momento de restituição completa não passa despercebido pela alma. Que produz um efeito definido, algo como um puxão longo e forte numa corda de sino. Por um segundo breve a alma responde. E nessa resposta, o ser vê a experiência da encarnação que terminou espalhada diante de si como um mapa.

Não há tribunal. Não há sentença. Há um ser observando o desenho completo daquilo que viveu.

A terceira é o isolamento de três sementes.

Este é o ponto mais determinante de todo o processo.

Do conjunto inteiro de experiências daquela encarnação, três fatores são isolados. Todo o resto é esquecido. Todas as experiências menores desaparecem da memória, deixando na consciência apenas o que Bailey chama esotericamente de as três sementes ou germes do futuro.

A primeira semente determina a natureza do ambiente físico futuro. Onde esse ser vai nascer. Em que condições. Sob que circunstâncias materiais.

A segunda semente determina a qualidade do corpo etérico que será construído. E, dentro dessa qualidade, qual dos sete centros será o mais ativo e vivo durante a encarnação que vem.

A terceira semente dá a chave do veículo astral. E é ela que, através das forças que atrai, traz o ser novamente em relação com aqueles que amou anteriormente ou com quem teve contato próximo.

Bailey acrescenta algo que muda a compreensão de toda a existência humana: a ideia de grupo governa subjetivamente todas as encarnações. O ser reencarnado é trazido à encarnação não apenas pelo seu próprio desejo de experiência no plano físico, mas também sob impulso de grupo e em linha com o karma de grupo tanto quanto com o seu próprio.

Os laços afetivos não são acidentais. E Bailey afirma que uma vez que isso seja verdadeiramente compreendido, grande parte do medo gerado pelo pensamento da morte desapareceria. O familiar e o amado permanecerão o familiar e o amado, porque a relação foi estabelecida ao longo de muitas encarnações.

A quarta atividade é a busca.

Guiado pela terceira semente, o ser procura e automaticamente encontra aqueles que fazem parte constante da experiência de grupo à qual pertence.

E se aqueles que ama ainda estão encarnados, ele os procura também. Permanece na vizinhança deles. Consciente de suas atividades, embora eles não estejam conscientes da sua presença.

Há ainda uma revelação que Bailey faz sobre o plano astral e que quase ninguém conhece.

Ela afirma que o plano astral não tem existência factual. É uma criação ilusória da família humana. E vai além: afirma que o plano astral se tornará lentamente uma criação em extinção, e que no período final da história humana, na sétima raça raiz, deixará de existir completamente.

O território onde a maioria da humanidade passa o intervalo entre encarnações é temporário.

A ilusão que prende tantos seres após a morte tem prazo de validade.

Isso muda completamente o que significa estar presente no momento da morte de alguém.

O moribundo não está perdendo consciência. Está ganhando-a.

Não está sendo separado dos que ama. Está sendo reorientado para aqueles a quem pertence.

E quem acompanha não está assistindo a um desaparecimento. Está assistindo a uma reorientação.

O que chamamos de morte é apenas o primeiro degrau, e no topo há algo que Bailey chama de felicidade inexprimível

Bailey faz uma afirmação sobre a origem das guerras que parece estar fora do tema, e que na verdade é a chave de tudo.

A base de todas as guerras, escreve ela, é fundamentalmente o senso de separatividade. Esse individualismo fundamental leva a todas as causas secundárias da guerra: ganância, que produz desastre econômico. Ódio, que produz atrito nacional e internacional. Crueldade, que produz dor e morte.

E então vem a frase que reorganiza o artigo inteiro.

As raízes da morte estão profundamente assentadas, escreve Bailey. É a destruição do ciclo de separatividade como indivíduo no plano físico que chamamos de morte.

Leia com atenção.

A morte não é o fim da vida. É o fim da separatividade.

E se a separatividade é a raiz de todo conflito, de toda guerra, de toda crueldade e de toda ganância, então a morte é o processo que desfaz precisamente aquilo que produz o sofrimento.

Bailey continua, e aqui o texto se torna quase eufórico. A morte, escreve ela, liberta a vida individualizada para uma existência menos apertada e confinada. E eventualmente, quando o processo de morte foi aplicado a todos os três veículos nos três mundos, liberta para a vida da universalidade.

E então usa estas palavras exatas: este é um ponto de felicidade inexprimível.

Felicidade inexprimível. Escrito por uma autora que passa o livro inteiro sendo técnica, precisa, contida. Quando chega neste ponto, a linguagem muda.

É sobre essa base que os três tipos de morte fazem sentido.

A primeira morte é a do corpo físico.

O que todos conhecem. O que todos temem. O evento que organiza culturas inteiras ao redor do medo. E que, à luz do que Bailey revela, é o menor dos três.

É o fim da separatividade no nível mais denso. A dissolução da forma que nos fazia acreditar que terminávamos na pele.

A segunda morte é a dissolução do corpo causal.

Acontece na quarta iniciação. E é infinitamente mais radical do que a primeira.

O corpo causal é o veículo da alma individual. É o que persiste de encarnação em encarnação, carregando o karma acumulado, guardando os frutos de milhares de anos de experiência.

Na quarta iniciação, ele desaparece e se destrói. E o que se estabelece em seu lugar é uma relação direta entre a Mônada no seu próprio plano e a personalidade recém-criada, via antahkarana.

A alma individual deixa de existir como entidade separada.

Esta é a morte que as tradições descrevem metaforicamente como iluminação, como nirvana, como dissolução do eu. Bailey descreve como evento literal, com consequências técnicas precisas, ocorrendo num ponto identificável do caminho iniciático.

E é aqui que o padrão fica claro. Cada morte é uma dissolução maior de separatividade. A primeira dissolve a separação física. A segunda dissolve a separação da própria individualidade da alma.

A terceira morte é a saída definitiva do plano físico cósmico.

Acontece quando o iniciado deixa para trás, finalmente e sem qualquer perspectiva de retorno, toda relação com o plano físico cósmico.

Bailey afirma que essa morte está muito distante para todos na Hierarquia, e que no presente é possível e permissível apenas para uns poucos na Câmara do Conselho em Shamballa.

E acrescenta um detalhe extraordinário: não é um processo pelo qual Sanat Kumara ainda passará. Ele já atravessou essa transformação há eras, durante o grande cataclismo que inaugurou a Era Lemuriana.

O que chamamos de morte é, nessa escala, equivalente a trocar de roupa.

E o que chamamos de imortalidade é apenas a próxima roupa.

Mas o que está no fim de toda essa sequência, segundo Bailey, não é vazio nem dissolução no sentido de perda.

É felicidade inexprimível.

Não uma promessa religiosa. Não uma compensação para quem sofreu. Uma descrição técnica do que acontece quando a última camada de separatividade finalmente cede.

O curador que não teme a morte do paciente tem uma liberdade que nenhuma técnica pode dar

Tudo que foi dito até aqui converge num ponto prático.

O curador que compreende a morte como processo não trabalha no mesmo campo que o curador que a teme.

Não é uma diferença de técnica. É uma diferença de liberdade.

O curador que teme a morte do paciente carrega uma pressão que contamina todo o trabalho. Precisa que funcione. Precisa que o paciente melhore. Precisa do resultado para validar o que faz e quem é. E essa necessidade, por mais bem-intencionada que seja, entra no campo junto com a energia.

Bailey é explícita sobre isso no Capítulo IX: a vontade do curador, quando não está subordinada ao amor, pode causar dano. Pode forçar. Pode estimular o que não deveria ser estimulado.

E a vontade mais difícil de largar é a vontade de que a pessoa não morra.

O curador que compreende a morte trabalha diferente.

Quando o campo do paciente fecha, quando as energias superiores param de entrar, quando o que resta é o conflito das forças entre si sem nenhuma referência superior organizando, ele reconhece o sinal.

E muda de papel.

Não é mais curador do corpo. Torna-se acompanhante da transição.

Bailey afirma que é o reconhecimento da condição dos centros que permite ao iniciado saber se a cura física do corpo é permissível ou não. Ele vê. E ao ver, escolhe corretamente entre duas formas de servir.

Esse segundo papel é tão sagrado quanto o primeiro. E é mais raro, porque exige o que poucos conseguem: largar o resultado.

Não precisar que o paciente viva para sentir que fez o seu trabalho.

Compreender que colaborar com a saída de uma alma é tão alinhado com o propósito hierárquico quanto colaborar com a sua permanência.

Bailey acrescenta uma informação que fecha a questão de forma definitiva: ninguém é jamais trazido de volta dos portões da morte cujo karma indica que sua hora chegou. O ciclo de vida no plano físico então termina.

A única exceção que ela menciona são trabalhadores de um Ashram, discípulos de alguma posição cujo trabalho e presença ainda sejam necessários na Terra para completar a tarefa que lhes foi atribuída. Nesse caso, o Mestre do Ashram pode acrescentar Seu conhecimento e Sua energia à do curador ou à do paciente, e produzir um adiamento temporário da partida.

Mas Bailey adverte imediatamente: nisso o curador não pode contar, nem o paciente tampouco, porque não conhecem as circunstâncias completas que justificariam tal intervenção.

Existe uma armadilha no cuidado que atinge quase todo mundo que se dedica a ele. A ilusão de que o sucesso do trabalho se mede pela sobrevivência de quem foi cuidado.

Bailey desfaz essa ilusão com uma clareza que incomoda antes de libertar. O que se mede é a qualidade da colaboração com a alma que está diante do curador. E essa alma pode estar escolhendo ficar. Ou pode estar escolhendo partir.

Nos dois casos o trabalho é o mesmo: criar as melhores condições possíveis para que ela realize o que já decidiu.

Não se cura completamente o que não se compreende completamente, e isso inclui o fim

Dois artigos desta série se encontram aqui.

O artigo que sucede este revelou onde o curador intervém. O campo etérico como território real de trabalho. Os dois triângulos formados antes de qualquer ato. As cinco horas de preparação silenciosa. O amor como único instrumento seguro.

Este artigo revelou o que acontece quando a intervenção não é o caminho. Quando a alma escolheu partir. Quando o trabalho deixa de ser restaurar e passa a ser acompanhar.

E o que emerge dessas duas revelações juntas é uma imagem do trabalho de cura que difere radicalmente da que a maioria dos praticantes carrega.

Curar não é garantir que o paciente viva.

É colaborar com a alma do paciente. Seja para restaurar a saúde, seja para facilitar a transição. O resultado pertence à alma. O trabalho pertence ao curador.

E resta uma pergunta que este artigo não responde.

Se a morte é um processo conduzido pela alma, se a cura é uma colaboração com a alma, se tudo que acontece no corpo é tradução de algo decidido num nível anterior, então a doença também é uma mensagem. De onde vem essa mensagem? O que ela está tentando dizer? Por que certos seres adoecem de certas formas e não de outras?

Essa é a pergunta que abre o próximo artigo desta série.

Mas há uma exigência que Bailey coloca aqui e que não pode ser contornada, independentemente do que venha depois.

Para fazer o trabalho de cura sem medo, sem resistência, sem necessidade de controlar o resultado, o curador precisa ter feito as pazes com a morte.

Não intelectualmente. Não como conceito aceito numa conversa filosófica. Existencialmente. No nível em que as decisões são tomadas quando ninguém está olhando e quando a situação é real.

É por isso que a Parte II de Esoteric Healing existe onde existe. Entre as causas da doença e as leis da cura.

Porque sem atravessá-la, as leis da cura permanecem técnica sem fundamento.

A arte de morrer é a arte de viver com a alma no comando

Não é preciso estar morrendo para precisar desta arte.

A arte de morrer que Bailey descreve é, no fundo, uma única capacidade: colaborar com a alma em vez de resistir ao que ela decide.

E essa capacidade não se aprende no leito de morte.

Se aprende agora.

Cada vez que a personalidade larga uma posição que defendia há anos. Cada vez que o ego cede ao que a alma vê com mais clareza. Cada vez que um plano é entregue porque deixou de fazer sentido, mesmo que muito tenha sido investido nele. Cada vez que o resultado é solto e o trabalho é feito sem apego ao que vem depois.

Tudo isso é morrer um pouco. E é exatamente a mesma capacidade que será exigida na última vez.

Bailey escreve que a humanidade está num ponto de transição em relação a esse tema. Que o medo da morte começará a diminuir. Que a morte passará a ser compreendida como processo natural e desejável, ocorrendo ciclicamente, sob lei.

Ela escreve isso em 1953. E afirma que a mudança levaria algumas décadas para começar a aparecer.

Setenta anos depois, ainda estamos na primeira etapa dessa transição. Ainda escondemos a morte. Ainda evitamos a palavra. Ainda tratamos o fim da vida como falha a ser combatida até o último recurso disponível.

Mas alguma coisa está se movendo.

E talvez a contribuição mais concreta que qualquer pessoa possa dar para essa mudança seja simplesmente começar por si mesma. Compreender o processo. Perder o terror. Aprender a soltar o que já cumpriu seu papel, enquanto ainda há tempo de praticar em coisas menores.

Morrer bem é uma prática.

E começa muito antes da última respiração.

Este é o segundo artigo de uma série de quatro sobre Esoteric Healing, de Alice Bailey. O artigo anterior mergulha na Raiz Invisível da Doença. Os artigos que sucedem este exploram O Curador que Não Precisa Tocar e O Ser Humano que Bailey Revelou.

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